Eu, pai, a direita e a educação

1. Vejam bem o que é o dia-a-dia de um pai normal (ou de uma mãe, pois claro). Levanta-se cedo, segue para o trabalho. As horas são o que são, faz-se o que encaixa no relógio, que nunca chega para tudo o que há por fazer. Depois é a hora de tratar das crianças. Elas chegam da escola, tomam banho, jantam, fazem os trabalhos de casa. De vez em quando sobra-lhes um bocadinho de tempo para brincar. De vez em quando. Um bocadinho.

Conhece a história, certo? Pois é aqui que eu não entendo a forma acesa como os dois partidos de direita têm tratado o tema da educação. Não é de hoje, é de há muito tempo. Exigência nos exames, logo ao quarto ano. Exigência nos currículos, logo ao terceiro ano de escola (alguém tem uma noção do que ali está imposto?). Exigência em tudo, pressão ao máximo.

Não, não me queixo por mim. Faz-me é uma impressão imensa esta obsessão da direita de fazer do primeiro ciclo uma espécie de antecâmara das crianças para a exigente vida futura: resultados, competitividade, pressão.

E agora pergunto eu: não era a direita que carregava a bandeira da família? E como é que a família faz para ter tempo para estar junta? E como é que as crianças podem crescer saudáveis se não tiverem tempo para brincar? Ou o conceito de família da direita é criar especialistas em física quântica aos 9 anos e as famílias contratarem pessoas para tratar das crianças?

E mais perguntas: não é a direita que clama pela autonomia das escolas no plano curricular? Que acha que os modelos educativos devem ser definidos por quem está no terreno? Então e como é que isso se compatibiliza com programas gigantescos, que os professores têm de cumprir até à última página?

Só mais uma (perdoem-me o desabafo). Defendendo a autonomia das escolas, a direita não devia de uma vez deixar esta polémica com os contratos de associação e lutar, de uma vez por todas, pelo apoio a alunos e não a escolas? E defender que as escolas de topo sejam realmente inclusivas, aceitando qualquer aluno sem limitações para ter acesso a dinheiro público? Mas, afinal, onde está o elevador social que tantos discursos fez no PSD e no CDS?

Às vezes não percebo mesmo estes partidos. Como quando vejo o CDS a propor uma outra divisão do ano escolar, com pausas a meio dos períodos letivos. Não, uma família normal não tem como organizar a sua vida com tanta confusão. Se a ideia é ser propositivo, se a ideia é arranjar um bom programa alternativo, a direita devia reunir-se menos em grupos de trabalho e entre deputados e ouvir mais as pessoas. Mas aquelas que vivem (mal) remediadamente. É com esses que se constrói um país diferente, não sem eles e falando em nome deles.

2. Já agora que falo do tema, acrescento uns elogios ao ministro da Educação. Não me parece nada mal a ideia de acrescentar tutores educativos, como agora é proposto. Melhor ainda me parece a ideia de dar manuais escolares gratuitos no primeiro ciclo (embora o modo de o fazer me gere desconfianças, porque não há criança de 6 anos que deixe o manual intacto para o que vier). Também não me parece mal mudar os critérios dos créditos horários dados às escolas, porque não me parece bem que a escola seja premiada por conseguir boas notas dos alunos (que é premiar os melhores contextos e não as melhores práticas).

Na verdade, nem estabelecer um diálogo estreito com a Fenprof me parece crime de lesa-pátria, francamente. O que se deve exigir a Brandão Rodrigues, isso sim, é que dê igual (ou maior) importância a negociar com a oposição um mínimo denominador comum, para que daqui a uns anos não voltemos 180 graus atrás, deixando gerações inteiras à deriva. Por mim, só lhe peço isso. De resto, não me queixo nem protesto.

3. Como estou em maré de elogios, dou um salto à vaca que voa para dar um bem-haja ao novo Simplex. E à prudência de uma ministra que tem a coragem de elogiar o que foi feito pelo anterior governo (mesmo que pouco). Ficam os balcões do cidadão, são mesmo alargados.

Tenho a certeza de que de a melhor coisa que o Estado pode fazer pela produtividade do país é dispensar cada um de nós daquele processo kafkiano de andar de balcão em balcão, atrás daquele papel final. Melhor dizendo: por mim, o Simplex só tinha uma medida: informatizar toda a administração pública com um sistema que permitisse o cruzamento de informação total. Será que esta vaca voava?

Artigo de opinião de David Dinis no DN

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Discriminação Sexual Nas Escolas Portuguesas

Excelente post de alguém que convive com esta realidade diariamente.

A discriminação existe e nao adianta assobiar para o lado achando que esta tudo bem, ou pior, achando que é um problema que nao nos afecta.

Escrever Gay

Convivemos nos últimos dias com a polémica do colégio militar e a discriminação na orientação sexual de cada um dos seus discentes. Será apenas nesta instituição? Infelizmente, o problema não se resume apenas a esta instituição de ensino. Atrever-me-ia a dizer que este comportamento atravessa muitas das escolas do nosso país.

Assim, com frequência somos testemunhas de adolescentes serem vítimas de bullying por causa da sua orientação sexual. A compreensão do direito à diferença está longe de ser um valor adquirido, mas importa salientar que a maioria dos preconceitos vem da família e é a escola que os tenta desconstruir através de inúmeras iniciativas levadas a cabo ano após ano.

Torna-se urgente educar não apenas os filhos, mas também haver uma educação parental com vista à aceitação e à mudança de mentalidades empedernidas. Pode estar a ser feita muita coisa nesse sentido, mas falta fazer outro tanto. Há casos de sucesso, de insucesso e de resguardo para não se…

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Dedicado a todos os críticos do SNS

Teimosamente os portugueses continuam a nao valorizar aquilo que têm de bom e tudo o que ja conquistaram desde Abril de 74 ate hoje.

A melhoria das condições de vida e um SNS do melhor que ha no mundo esta na base deste sucesso.

Portugal está no grupo de 29 países do mundo com uma esperança média de vida de 80 anos ou mais, segundo um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Tony Dias/Global Imagens

 

O relatório foi divulgado pela OMS esta quinta-feira. O Japão é, com uma média de 83,7 anos, o país do mundo com maior esperança média de vida, logo seguido pela Suíça, com 83,4 anos. Na região europeia, mantêm também esperanças médias de vida acima dos 82 anos a Espanha, Itália, Islândia, Israel, França e Suécia, enquanto o Luxemburgo figura com 82 anos exatos.

Segundo a lista da OMS, com base em dados de 2015, na zona do Pacífico, além do Japão há mais três países com esperança média de vida acima dos 82 anos: Singapura, Austrália e a Coreia do Sul.

Portugal surge com uma esperança média de vida de 81,1 anos, em décimo terceiro lugar na tabela europeia, ao mesmo nível da Finlândia e da Bélgica e à frente de países como a Alemanha, a Dinamarca ou a Grécia.

Na tabela de 50 países da zona europeia assumida pela OMS, a Suíça lidera a esperança de vida para o conjunto dos dois sexos, com 83,4 anos, seguida de Espanha (82,8) e de Itália (82,7). No fim da tabela está o Turquemenistão (com 66,3 anos) e o Uzbequistão (69,4 anos).

A esperança média de vida global, em todo o mundo, foi em 2015 de 71,4 anos. De uma forma geral, em todos os países, e em todas as regiões no seu conjunto, as mulheres vivem mais que os homens, com uma esperança média mundial de 73,8 anos, enquanto os homens se ficam pelos 69,1 anos.

O relatório da OMS salienta que ainda há 22 países no mundo onde a esperança de vida fica abaixo dos 60 anos, todos eles situados na África subsaariana.

Globalmente, a esperança de vida quando atingidos os 60 anos tem crescido continuamente, passando de 18,7 anos em 2000 para 20,4 anos em 2015.

Quanto à mortalidade materna, definida pelo número de mães que morrem por cada 100 mil nascimentos, foi estimada globalmente, no passado, em 216, o que faz com que 830 mulheres morram no mundo a cada dia devido a complicações da gravidez e do parto.

“Quase todas essas mortes ocorreram em ambientes com poucos recursos e a maioria poderia ter sido evitada”, refere o documento da OMS.

A região africana lidera as cifras de mortes maternas, com a Serra Leoa a ter os piores níveis (1.360 em 100 mil). Na Europa, Finlândia, Grécia, Islândia e Polónia são os países com melhor classificação, com uma taxa de três mortes maternas por cada 100 mil nascimentos. Portugal surge sensivelmente a meio da tabela, com 10 em cada 100 mil.

Relativamente à mortalidade infantil, a OMS aponta para que 5,9 milhões de crianças com menos de cinco anos tenham morrido no ano de 2015, com um ratio de 42,5 mortes por cada 100 mil nascimentos. Cerca de 45% dessas mortes ocorreram em recém-nascidos, com uma mortalidade neonatal de 19 por 100 mil nascidos.

Na região europeia, a esmagadora maioria dos países tem níveis de mortalidade infantil abaixo dos 10 por 100 mil nascimentos, com o Luxemburgo a apresentar a melhor taxa (1,9), seguido da Islândia (2,0) e da Finlândia (2,3). Portugal situa-se no grupo dos 20 países da região com melhores indicadores, com 3,6 mortes abaixo dos cinco anos por 100 mil crianças nascidas, à frente de outros países do sul como Espanha (4,1), França (4,3) e Grécia (4,6).

Esperança média de vida aumentou cinco anos desde 2000

A edição deste ano das Estatísticas Mundiais de Saúde, publicadas, anualmente, pela OMS desde 2005, conclui que a esperança média de vida de uma criança nascida em 2015 era de 71,4 anos (73,8 para as mulheres e 69,1 para os homens), mais cinco anos do que em 2000.

No entanto, as perspetivas dependem muito do local onde essa criança nasceu: Se for uma menina e tiver nascido no Japão, pode esperar viver até aos 86,8 anos (a mais alta esperança média de vida), mas se for um rapaz na Serra Leoa o mais provável é viver apenas 49,3 anos (a mais baixa).

O mundo fez grandes avanços na redução do sofrimento desnecessário e das mortes prematuras provocadas por doenças que podem ser prevenidas e tratadas, mas os ganhos têm sido desiguais”, disse a diretora-geral da OMS, citada num comunicado da organização.

Fonte: TSF

Quando as crianças são coisas

A partir de hoje as crianças são coisas e as mulheres podem ser incubadoras. As crianças conseguiram este estatuto e alcançamos assim a plenitude de uma sociedade civilizada e moderna. Estamos como queremos. A maioria dos deputados eleitos pelos portugueses votou as barrigas de aluguer, ou a maternidade de substituição, ou a gestação de substituição. Agora uma mulher já pode altruisticamente, ou não, gerar um filho e cedê-lo a alguém que não possa engravidar. Em causa está o interesse de quem não pode ter filhos e quer ter. Mais nenhum. A mãe (a primeira), desde que lhe sejam pagas as despesas da gravidez, pode gerar um filho e dá-lo. Dizem que é só para os casos extremos. Casos em que alguém quer muito ter filhos e não pode, e casos em quem a mãe (a primeira) não se importe de gerar um filho e cedê-lo como se o filho fosse um dente que demora nove meses a arrancar. A isto chama-se contrato de gestação. O objeto do contrato é uma criança. A mãe, o seu corpo, ou até o seu útero, é o invólucro da coisa e pode ser agora alugada por meio de um contrato. Só o lucro é proibido, de resto é como se se encomendasse um cachorro ao dono de uma cadela. Nos países onde esta aberração já acontece, somam-se casos de mães que se recusam a abortar porque a outra parte desistiu do filho, de crianças que nascem com deficiências e que são rejeitadas por ambas as partes, de gravidezes de gémeos quando a encomenda era só um filho, de contratos que são simples negócios lucrativos e de barrigas alugadas porque não se quer estragar o corpo com gravidezes. São casos destes que chegarão cá mais cedo do que tarde e que a imaginação humana não consegue prever. E não, esta lei não foi feita à revelia de ninguém: é a expressão da maioria da vontade dos portugueses representados na Assembleia da República. Resultado de uma de duas coisas: ou andamos todos a dormir ou queremos mesmo aberrações destas. Seja como for, é sintoma de que alguma coisa neste país não está bem. Que os cães não são cadeiras, já sabíamos; que as crianças o são, ficámos ontem a saber.

Ines Teotonio Pereira no DN

Primeiro dia do governo Temer: Um “eu te disse” não vai ser suficiente

Com base no conteúdo postado nas redes sociais da esquerda durante o primeiro dia do governo de Michel, é possível dizer que o descontentamento e a raiva, feito leite aquecido além do ponto, transbordaram. E não sei quanto tempo vai levar para que a fervura baixe ou mesmo se é possível que o leite derramado volte à panela. Nem sei se haverá panela, que desapereceu após a queda de Dilma.

A impressão é de que o novo governo vai estabelecer uma mistura de “blitzkrieg” (com ataques rápidos e de surpresa) com “guerra total” (de alcance ilimitado, em que não há distinção entre civis e combatentes) para aprofundar o viés liberal na economia e conservador na sociedade. Se Dilma pode ser acusada de estelionato eleitoral por ignorar parte do que prometeu, Michel vai implantar uma agenda que não foi eleita e que não venceria eleições presidenciais no Brasil. Uma pauta que nem Dilma, Marina ou Aécio defenderiam na TV porque sabem que levariam sola.

Gostando dela ou não, mas a Constituição de 1988 garante uma sombra diante do deserto que os mais pobres não estão dispostos a perder. E, por isso, apenas algo que não foi escolhido seria capaz de produzir o impensável.

O mais interessante é que os sentimentos e os comentários mais profundamente negativos, na minha opinião, nem estão vindo do lado dos petistas – que ainda estão no ciclo da tristeza e da decepção. Mas daqueles que já faziam oposição à Dilma pela esquerda.

Gente que não gostava da presidente afastada por conta da precária situação indígena, da falta de perspectivas aos jovens negros nas periferias, das tungadas em trabalhadores, da risível reforma agrária, do menosprezo ao meio ambiente, das denúncias de corrupção, de Belo Monte e afins, e que nunca a defenderia. Mas que foi às ruas protestar pelo respeito às instituições democráticas. Gente que pensou: “é um governo de merda, mas é um governo de merda pelo menos legitimado por eleições”.

Ao se depararem com as primeiras medidas adotadas pelo novo governo, que vão do rebaixamento das áreas de fiscalização do Estado e de direitos humanos, passando pelas promessas de mais violência e perseguição aos movimentos sociais e a garantia de um lugar de destaque ao fundamentalismo religioso cristão, até a misoginia da composição do novo ministério, com seus réus por corrupção e aberrações, um discurso de revolta, que já se ensaiava, fluiu feito rio caudaloso nas redes sociais.

Não a revolta inocente dos que não sabiam, mas a revolta calejada dos que dizem que isso aconteceria se as políticas progressistas deste ciclo social-democrata/trabalhista (1994-2016) não fossem institucionalizadas, se a educação visando ao debate público e ao respeito à coisa pública não fosse implementada, se as mudanças para garantir a democratização da comunicação (que não calasse vozes, mas garantisse espaço a todas elas) não fossem engavetadas.

E, principalmente, se o governo e oposição não largassem mão de alimentar o que há de pior na política nacional em nome da governabilidade, primeiro com o PFL, depois com o PMDB. Agora, PT e PSDB tornam-se satélites da realidade que eles mesmos criaram.

Para esse pessoal, que acompanha há anos direitos serem ignorados em nome da governabilidade, um simples “eu te disse” não será o bastante.

Essa esquerda, composta por movimentos e coletivos sociais novos, mas também alguns tradicionais, estará menos afeita a ceder. Até porque já caiu no conto do vigário do PT, que a convidava para um eterno diálogo que entregava poucos resultados. Mas que ela aceitava porque nutria alguma esperança de que as coisas pudesse mudar. Agora, vendo o quanto essa democracia foi facilmente dobrada, até essa esperança deu lugar a um vácuo.

Creio que será um período tenebroso para o respeito (quiçá existência) aos direitos fundamentais, mas que temos que percorrê-lo com muita disposição ao diálogo pacífico, lembrando que o Estado deve garantir a dignidade das pessoas e não ser ele vetor de seu sofrimento.

Ao mesmo tempo, as esquerdas (os movimentos e organizações sociais tradicionais, os novos movimentos e coletivos sociais e a esquerda partidária) terão que refletir. E, para além de demandar, pensar se é viável construir um plano de voo para o país. E, através disso, disputar novamente essa narrativa.

E se Michel for esperto, não mandará Alexandre de Moraes soltar os cachorros para cima da esquerda, principalmente daquela que nunca esteve no poder e cansou de concessões. Diante da disposição dela de não arredar o pé de seus minguados direitos, Michel correrá o risco de não conseguir convencer a comunidade internacional de que as mortes daqueles militantes sociais pelas mãos do aparato policial eram realmente necessárias.

Fernanda Câncio e a reprovação ética

Embora discordando do calor posto nalgumas causas que defende, gosto muito da Fernanda Câncio como jornalista. Reconheço-lhe competência e coragem e, ultimamente, muita coragem na resposta às acusações de que é vítima. Mas acontece aos melhores. Estatelou-se um bocadinho no esclarecimento concedido à revista Visão. Depois de longas e substanciais linhas de argumentação impecável, clara, certeira e bem redigida (como sempre) a propósito das acusações que lhe foram feitas de envolvimento e cumplicidade em crimes no âmbito da Operação Marquês e depois da denúncia do papel revoltante, frustrante, discriminatório e criminoso do Ministério Público nesta charada, Fernanda Câncio resolve dizer que, se soubesse da “relação pecuniária” de Sócrates com o amigo, teria feito perguntas por considerá-la, no mínimo, eticamente reprovável.

Aqui está o que não percebo. Como pode ser eticamente reprovável uma chamada “relação” pecuniária entre dois amigos que mais não pode ser, na prática, do que um acordo? Sobretudo quando não existe evidência alguma de esse amigo ter sido favorecido durante o mandato de Sócrates como primeiro-ministro e, logo, evidência alguma de pagamentos feitos a Sócrates? Evidência alguma.

Para classificar a relação pecuniária entre os dois amigos de, “no mínimo, eticamente reprovável”, Fernanda Câncio teria que saber mais do que aparenta.  Por exemplo, saber não só os termos exatos do acordo entre os dois e os seus motivos (que teriam de ser sujos), mas também que o dinheiro de Santos Silva era ilícito. Ora, tudo indica que a Fernanda não sabe e tudo indica que não é. Se ao menos soubesse de fonte segura que o dinheiro emprestado por Santos Silva tinha proveniência ilícita e que Sócrates tinha disso conhecimento, ainda teria alguma lógica o que diz e deveria até ir mais longe, embora aí pudesse ser acusada de sonegação de informação relevante e de cumplicidade. Como tal não é o caso, deveria guardar os juizos morais para mais tarde.

É que, se a Fernanda não sabe nada dos termos, das condições e das razões do acordo entre os dois, como eu não sei nem quem lê o Correio da Manhã sabe, não tem que reprovar nem aprovar. Era isso que devia ter dito. Ou evitar dizer o que disse. Eles lá sabem. Carlos Santos Silva não foi seguramente obrigado a nada. Deste modo, a Fernanda está pura e simplesmente a dar crédito às insinuações do Correio da Manhã que, no seu caso, tanto repudia. Também não quero acreditar que, se a Fernanda soubesse que quem pagara o aluguer da casa de Formentera fora Santos Silva, não teria ido passar férias com Sócrates. É que a Fernanda diz ter acreditado que era Sócrates que pagava a sua (dela) parte das despesas de férias. Afinal quem pode e quem não pode ser graciosamente convidado para férias (e dispor de uma casa emprestada)? Só a Fernanda e o Marcelo?

Neste processo Marquês, a única coisa que interessa verdadeiramente é se houve corrupção ou se Carlos Santos Silva fez fortuna de forma ilegal. Se não houve nem se provar nada disto, o que cada um faz ao dinheiro é consigo.

Pescado no Aspirina B

Ídolos com pés de barro

Descobri este post  no blogue Arco de Almedina que dedico a todos os Santos moralistas deste rectângulo a beira mar plantado. Mesmo sabendo que nunca nenhum Santo foi moralista portanto nunca nenhum moralista sera Santo.

Os ídolos com pés de barro são aqueles que se pavoneiam pelas ruas, colocam-se, eles próprios, num pedestal, até porque só os pequenos precisam de pedestal para serem vistos, e dizem lá das suas alturas, em alta voz: «nós somos os maiores».

 De facto, são os “maiores” na mesquinhez, na pequenez de sentimentos, que os fazem ser solidários apenas com quem lhes convém, e não com quem precisa. Praticam a política do faz-de-conta. Que é assim (como se usa dizer agora): faz-de-conta que somos; faz-de-conta que pensamos; faz-de-conta que sentimos; faz-de-conta que vemos; faz-de-conta que ouvimos; faz-de-conta que fazemos; faz-de-conta que vamos…

 E faz-de-conta que o povo acredita.

 Então criam uma espécie de sociedade fictícia. Primeiro, vão eliminando, aos pontapés, pela calada, para não darem nas vistas, que é como quem diz, sorrateiramente, quem se lhes opõe; depois dão umas palmadinhas nas costas aos interesseiros, que precisamente por serem interesseiros, deixam-se, desse modo, aliciar voluntariamente; sorriem com sorrisos de orelha a orelha aos desconfiados, que perante um tal sorriso, e na dúvida, dão-lhes um benefício. Quanto aos que não sabem e não querem saber, fazem-lhes promessas que não cumprem, mas esses têm a memória muito curta, e esquecem-se deste significativo pormenor, e na próxima vez, lá estão eles, a acreditar outra vez. Aos que têm medo, ameaçam-nos com tudo o que podem, subtilmente, para que os demais não se apercebam.

 Aos outros, aos que não têm medo, arreganham-lhes as dentaduras, algumas postiças, outras com dentes dourados, outros furados, outros amarelos, pelo tempo que passam à janela da boca, ou mesmo branqueados com pastas dentífricas de luxo. Passeiam-se nos seus automóveis de milhões, e não passam cavaco senão àqueles que lhes fazem vénias, com hérnias e tudo.

 Todavia, os ídolos com pés de barro têm uma vida efémera, como tudo o que é frágil, mas não sabem, ou fingem que não sabem. Vivem como se fossem eternos. Como se não estivessem destinados a morrer num amanhã, próximo ou longínquo, mas certo e seguro. Agarram-se aos tachos (não aos da cozinha, porque esses, estão destinados à grande maioria das mulheres) como a uma tábua de salvação, pensando que esses tachos são também eternos. Como se enganam esses ídolos! Um dia, quando menos esperam, basta um ligeiríssimo tremor na voz, para que caiam dos seus pedestais e se escaqueirem no chão, que tão pomposamente pisam.

 E o que restará deles então? Fragmentos inúteis, que os vindouros juntarão, para que se faça a verdadeira e legítima justiça, e se reponha toda a verdade sobre o agora vigente Reino do Caciquismo.

 Isabel A. Ferreira

A amnésia de Passos, o Interesse Alheio, o Ensino Privado e o Direito de Escolha

Decididamente Passos Coelho tem um grave problema de memória e as efabulações que debita já roçam o delírio.

Fonte: A amnésia de Passos, o Interesse Alheio, o Ensino Privado e o Direito de Escolha – Jornal Tornado

Os anti-intelectuais

Blog

Ruy Fausto, professor emérito da USP (Filosofia)

Untitled-1O Estadão de domingo, 27 de março, publica, em “notas e informações”, um texto com o título “Os anti-intelectuais”, a propósito dos manifestos e abaixo-assinados de intelectuais e artistas contrários ao impeachment, texto que merece reflexão.

O artigo começa assim: “Mesmo diante das volumosas evidências de que o lulopetismo é autoritário por natureza, mesmo que abundem provas de que o chefão Luís Inácio Lula da Silva e seus seguidores tramam à luz do dia contra as instituições republicanas, mesmo que seja clara a ânsia da tigrada de calar a imprensa livre e favorecer o jornalismo companheiro a serviço do pensamento único, ainda assim há intelectuais – ao menos é assim que eles se identificam – que se dispõem a defender, em nome de um suposto espírito democrático, um governo e um partido cada vez mais identificado com tudo aquilo que ofende a democracia e…

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