Salários no topo cada vez mais desiguais

O mercado de trabalho mudou muito desde que Portugal aderiu à CEE. Primeiro Dia do Trabalhador foi comemorado há 42 anos

Nas últimas três décadas, as mulheres reforçaram a presença no mercado do trabalho e são hoje metade (49%) dos portugueses empregados. Esta evolução para a igualdade na “ocupação” dos empregos disponíveis não teve paralelo nas remunerações. Quando aceitam trabalhos pouco qualificados, eles e elas ganham praticamente o mesmo, mas nos cargos de topo ou altamente qualificados o caso muda de figura. Pior, em 30 anos, a disparidade aumentou, e muito.

Foquemo-nos em 1986. Por essa altura, praticantes e aprendizes (categoria a que pertencem os trabalhadores em lugares menos qualificados e de menor responsabilidade) ganhavam cerca de 2% menos do que colegas homens. Hoje, a diferença é de 5%. Mas quando se olha para o que sucedeu nos cargos de topo, os dados reunidos pela Pordata mostram que a diferença de remunerações entre uns e outras nos quadros superiores aumentou de 26% para 36% e nas profissões que exigem pessoas altamente qualificadas as mulheres ganham agora, em média, menos 19% do que os homens, contra uma diferença de 2% em 1986. “São diferenças assinaláveis e que nos devem fazer refletir”, diz Maria João Valente Rosa, diretora da Pordata, da Fundação Manuel dos Santos, que apresenta hoje um estudo sobre a população empregada em Portugal. E no período em análise assistiu-se ao reforço da qualificação das mulheres.

Diferenças salariais à parte, Portugal tem mais 260 mil pessoas empregadas do que quando aderiu à CEE, para um total de 4548 mil trabalhadores. Que retrato se poderia tirar daqui se a população a trabalhar fosse reduzida a cem pessoas? Os resultados revelam que neste tempo se reforçou o número de trabalhadores por conta de outrem (com patrão) e de funcionários públicos: seriam 11 em 1986, mas hoje são 15 naquela centena. O aumento do trabalho dependente foi acompanhado de mais precarização nos vínculos laborais e de horários reduzidos (a tempo parcial). No caso dos part times, diz Maria João Valente Rosa, houve uma duplicação (de 5% para 13%), sendo o crescimento entre os homens o mais expressivo, apesar dos nossos 13% estarem abaixo da média de 20% da UE. Outro sinal dos tempos e da evolução demográfica está na participação dos mais jovens (15 aos 24 anos) no mercado de trabalho. Há 30 anos, 19 daqueles cem trabalhadores estariam nessa faixa etária, hoje são cinco. Tendência justificada pelo envelhecimento da população, taxa de desemprego e adiamento da entrada na vida ativa, com o prolongamento de estudos – o que mostra a aposta na qualificação.

Esta aposta é o caminho certo, mas a responsável da Pordata não tem dúvidas de que tem de ser reforçada e que Portugal tem ainda um longo caminho a percorrer. Os números ajudam a compreender: Portugal é o 6.º país da UE onde as pessoas trabalham mais horas (apenas na Grécia, Polónia, Malta, Letónia e Croácia a carga horária é mais musculada). Mas quando se olha para a tabela da produtividade, cai para a 20.º. Porque a quantidade não é sinónimo de qualidade, mas reflexo das baixas qualificações. Basta ver que 47% dos trabalhadores por conta de outrem têm apenas o 9.º ano (na UE são 17%) e que 58% dos empregadores não foram além desse nível de escolaridade.

Lucilia Tiago no DN

Não é a Uber que tem de mudar, são os táxis

Em poucos minutos uma viatura de boa qualidade, chega ao local definido com um motorista educado para o levar ao seu destino. Música? Pode escolher já que se tiver a aplicação “Spotify” ligada no seu telefone, a música é a sua. Preço? Na versão básica da Uber, a Uber X, é mais barato do que um táxi.  Chegando ao final, o valor é cobrado diretamente no seu cartão de crédito o que acaba com o tradicional… “é que não tenho troco para notas de 5 euros”. No final, recebe no seu telefone um recibo e um pedido para avaliar o serviço entre 1 a 5 estrelas.

 Claro que um serviço como este tem tido imensas reclamações por parte dos proprietários dos táxis, que acusam a Uber de ser inseguro, ilegal, pouco profissional e de roubar empregos. Em vários países já se registaram ataques violentos de taxistas aos motoristas do Uber. No entanto, quem experimentou sabe que o serviço é muito melhor do que o dos táxis.

 A primeira impressão é a mais importante. Isto é especialmente relevante para os turistas que visitam o nosso país e de quem a economia depende. Na minha viagem de Natal a Portugal, depois de 12 horas de voo dirigi-me para a fila de táxis. Entro num carro velho com um jovem motorista antipático, que em tom desagradável quase me ameaça, “Aqui há horas para ir para tão perto” quando lhe digo o meu destino. O carro com um cheiro insuportável a tabaco claramente com origem no maço quase vazio de SG Ventil em cima do “tablier”. AC/DC a tocar no rádio, maravilhoso depois de mais 12 horas num avião e janela aberta sempre bom para apanhar o frio do inverno. Quando pedi para desligar o rádio e fechar a janela, baixou algo o volume e fechou um pouco a janela. Com pouca vontade de me aborrecer logo à chegada, lá fui até casa com frio e os AC/DC dentro da minha cabeça. Chegado ao destino, novamente me interpela de forma desagradável, “Não tenho troco de 20 euros” para pagar 12 euros. Esta experiência  impacta negativamente o turismo e a imagem da cidade, dão má reputação e no longo prazo prejudicam empregos não só dos taxistas, mas também de todas as outras pessoas que dependem do turismo para os seus negócios.

 O tema não é os taxistas perderem o emprego. Se estou de acordo que a perda de empregos é um problema grave, sou totalmente a favor de dar os empregos disponíveis a quem merece. E quem merece é quem dá melhor serviço aos clientes. Tem de se acabar com esta impunidade em que o cliente não tem formas eficientes para reclamar e com consequências reais. No caso da Uber um motorista com menos de 4 estrelas de média de classificação entra em período de prova. Se não consegue melhorar é demitido da Uber.

 Estou de acordo que a Uber se aproveita de vazios legais e não é justo que os táxis tenham de pagar alvarás e licenças e os condutores da Uber não. Mas a verdade é que a Uber conseguiu fazer o que a maioria das cidades não conseguiram… dar um serviço de transporte individual conveniente e de qualidade (há exceções e taxistas extremamente corretos, mas vamos a ser honestos que a imagem generalizada não é boa).

 Uma sociedade avançada não é uma sociedade em que as classes com menos recursos andam de automóvel, mas uma onde as classes mais favorecidas andam de transportes públicos. Tenho amigos que venderam as suas viaturas para usar a Uber. Num momento da história em que o tráfego na maioria das cidades está a chegar a níveis insuportáveis, e o planeta não aguenta muito mais poluição, o transporte partilhado é cada vez mais uma solução viável e que deve ser implementada. E esperem até chegarem os carros que se conduzem sozinhos (o Google já tem vários a funcionar e várias marcas também os estão a desenvolver). Nessa altura, estaremos perante uma revolução que ainda irá mudar mais a atual situação.

 A Uber veio e para ficar, por razões simples… funciona, resolve um problema e os clientes adoram o serviço. Quem tem de mudar são os táxis e já era hora de tal acontecer.

David Bernardo no Negocios

Carta aberta à McDonald’s (pelo direito a escolher)

Compreenderão a desilusão que elas sentem quando recebem um Supercharger, uns bélicos Transformers, e a estranheza com que perguntam se não houve engano, se aquilo não era para os meninos.

Caros senhores*,

desde que abriram portas nestas terras que sou uma incondicional frequentadora dos vossos espaços e, mesmo quando resisto a um McBacon com batatas fritas, e ao melhor “ketchup” português, não passo sem um McFlurry com M&M.

Mas, se até hoje, era o protótipo do cliente satisfeito, vejo-me agora na obrigação de protestar em nome das meninas portuguesas, que certamente só não inscrevem esta queixa no Livro de Reclamações porque não vão munidas do necessário Cartão de Cidadão.

O que as perturba neste momento não é o ponto de cozedura do hambúrguer, nem tão pouco a fritura das batatas, ou as indicações nutricionais que obcecam os pais, mas o brinde no Happy Meal que, invariavelmente, preferem.

É claro que lhes podemos explicar que não é legítimo refilar quando nos oferecem qualquer coisa, sem pedir contrapartidas mas, como certamente a McDonald’s entende, as conquistas e os privilégios adquiridos não são coisa de que se abra mão com facilidade.

Ora, até aqui, o Happy Meal era para as crianças uma oportunidade de escolher um brinquedo de que gostassem. E as raparigas, invariavelmente contaminadas pela pertença ao género com que nasceram, e por uma preocupantíssima identificação com os outros elementos do sexo feminino que as rodeiam, inclusive as princesas do Frozen, preferiam habitualmente o de menina. E os rapazes, aquele que era pensado para rapazes. Poupo-vos a uma reflexão sem fim sobre o que é da natureza e o da educação (“nature” vs. “nurture”), porque para o caso o que importa é a expectável presunção de que o cliente tem sempre razão.

Dito isto, compreenderão a desilusão que elas sentem quando recebem um Supercharger, uns bélicos Transformers, e a estranheza com que perguntam se não houve engano, se aquilo não era para os meninos. A que se segue a consternação com que recebem a informação de que agora os brinquedos passaram a ser “unissexo”.

Os pais e os avós, como eu, que gostam da McDonald’s é claro que lhes irão explicar, como forem capazes, que os senhores são boas pessoas, mas que se deixaram pressionar pelo politicamente correto, e pelas ideologias da moda, e que, coitados, pagam uma “taxa moral” pelo facto de serem uma multinacional de sucesso, mas não sei se vai resultar. Desconfio que, irredutíveis, como as crianças sabem ser, vão insistir: “Mas vamos voltar a ter Barbies e assim?”

Aí seremos obrigados a abanar a cabeça com descrença, pela simples razão de que sabemos que os senhores sabem que se os brinquedos forem muito “de menina”, serão liminarmente rejeitados pelos rapazes (e pelos seus pais!). O que, na prática, provavelmente vos irá levar a sacrificar as raparigas, que são aquelas que se adaptam melhor e refilam menos. Ou seja, a McDonald’s comete hoje uma injustiça por género pior do que aquela que pretendia corrigir – é habitualmente no que dá o fanatismo ideológico.

Também teremos vontade de dizer, e só não o farão por lealdade para convosco, que não parece que seja missão das empresas “educar” os filhos dos outros. Presume-se, até, que os filhos de pais que rejeitam a diferença de género nos brinquedos tenham, há muito, aprendido a pedir aquilo que lhes apetece, sem necessidade que façam escolhas por eles.

Compreenderão por tudo isto a necessidade que senti de vos dar nota deste protesto: as raparigas querem brinquedos de meninas mas, acima de tudo, não abdicam do direito de escolher – a 26 de Abril a reivindicação deve fazer ainda mais sentido.

Com os melhores cumprimentos,

Isabel Stilwell

* Para incluir as CEO, sem pleonasmos.

Isabel Stilwell no Negocios

25/04

Abril de Abril

Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.

Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.

Era um Abril na praça Abril de massas
era um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.

Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril em acto
em mil novecentos e setenta e quatro.

Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.

Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas

Manuel Alegre

Obrigado!

O objetivo é só mamar nas tetas do povo.

incomodativa

Estou aqui pensando: por que diabos eu tenho um título de eleitor!?!!!?? Democracia “de cu é rola”! Troca por merda que dá na mesma! O direito ao voto foi só mais uma ilusão.

Este povo endossa sua dominação; tem prazer em ser dominado e sofrer pra poder gritar aos quatro ventos, injuriado!, que brasileiro é sofredor e que o Brasil não presta! Tem que ter um drama na sociedade, pra que a vida imite a novela. Pra que a política vire fofoca e se converta em revanchismo.

Povo dominado não tem maturidade para a democracia. Vão retroceder 30 anos com a queda de Dilma. Vão entregar o país para um bando de pilantra que só quer “secar” o que nele resta de bom. Vão cuspir o bagaço na tua cara, na cara do povo, na cara do pobre. E não se engane! Classe média, tu também é pobre! Tu também é…

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Impeachment: Quando esta guerra acabar, vão sobrar as baratas

Independentemente do que aconteça, neste domingo (17), com a votação do impeachment de Dilma Rousseff, os dois partidos políticos que foram a maior esperança do país e em torno do qual a democracia brasileira se consolidou nos últimos 20 anos caminharam para uma Destruição Mútua Assegurada.

Segundo essa doutrina militar, conhecida por quem viveu o horror da Guerra Fria, como cada um dos lados (EUA e União Soviética) tinha armamentos nucleares suficientes para destruir o outro e que, uma vez atacado, retaliaria com força igual ou maior, a escalada resultante levaria ao fim de ambos. E talvez do mundo como o conhecíamos.

Esse medo também levou o outro lado a, sabendo disso, evitar ao máximo começar um ataque. Um equilíbrio tenso mas, ainda assim equilíbrio.

O momento em que vivemos é fruto muito mais da escalada de ataques sujos e rasteiros, analógicos e virtuais, das eleições polarizadas de 2014 (e seus desdobramentos) do que das manifestações de junho de 2013, que ajudaram ao debate político sair do armário no Brasil.

A guerra suja aberta por PSDB e PT abriu caminho para que se jogasse a criança fora com a água suja do banho, ou seja, para que instituições democráticas fossem criticadas e menosprezadas na campanha e depois dela.

Pessoas decretam a inutilidade não só do parlamento, mas também da própria atividade política – que, teoricamente, deveria ser uma das mais nobres práticas humanas. Outros solicitam que se encontre um “salvador da pátria” que nos tire das trevas, sem o empecilho de pesos e contrapesos. Ou que Jesus volte.

A corrupção minou bastante a credibilidade de instituições. Mensalões, Trensalões, Lavas-Jato e a maioria dos escândalos, que permanecem longe dos olhos do grande público, foram relevantes. Mas a incapacidade da classe política de garantir que a população mais pobre não sofreria de forma tão violenta os efeitos da crise econômica é o motor da insatisfação da maioria dos brasileiros.

A maior parte do povão, a maioria amorfa em nome do qual tudo isso é feito, mas que raramente se beneficia do grosso do Estado, não foi às ruas nem pró, nem contra o governo. Continua onde sempre esteve: trabalhando pelo bem-estar de uma minoria e assistindo a tudo bestializado pela TV.

Nesse contexto, qualquer pessoa com posicionamento político tem sido criticada pesadamente. Ter opinião virou crime, defender um ponto de vista agora é delito, abraçar uma ideologia é passível de morte. Ou, em outras palavras, “fazer política é escroto”.

Ou, pior, caminho para o enriquecimento ilícito. Ou seja, espalha-se a percepção de que quem se engaja na política, partidária ou não (porque muitos fazem questão de resumir toda política à partidária), tem interesses financeiros. Porque muita gente não consegue entender que a vontade de participar dos desígnios da pólis não seja apenas por ganho pessoal.

O parlamento deveria ser o centro da vida política do país e não um estábulo de interesses pessoais. Mas a roda-viva da terra arrasada agora gira por conta própria.

O problema é que alguns grupos que viviam à sombra de partidos, de um lado e de outro do espectro ideológico, mas principalmente entre os conservadores, se alimentaram desse processo. Muitos não querem diálogo, querem sangue. Quanto pior, melhor.

Os partidos acharam que estavam reunindo as forças ao seu lado para a guerra. O problema é que, agora, começaram a perceber que podem sair desse caos como coadjuvantes.

O PSDB (Aécio, Alckmin e Serra) amarga índices ridículos na última pesquisa Datafolha – e com tendência descendente. O povo percebeu que o partido está envolvido na mesma corrupção que denuncia. E o PT, ah o PT… Esse desidrata em público, por seus próprios erros e delitos. Ainda depende de Lula para continuar respirando por aparelhos. Em outras palavras, seu futuro depende do fato de ele não estar inelegível em 2018.

Com tudo isso, é possível imaginar que, ao final dessa guerra nuclear política, dessa Destruição Mútua Assegurada, sobrarão muitas baratas.

Baratas, que serão referência política. Baratas, que serão eleitas.

Porque, se por um lado, são asquerosas, por outro, são resistentes. Estavam lá antes de nós e estarão muito depois de todos irmos embora.


barata

Fonte: Blog do Sakamoto

O BE, a identidade de género e o ridiculo

O BE lembrou-se agora que o Cartão de Cidadão é sexista ja que “não respeita a identidade de género de mais de metade da população portuguesa”.

E o disparate em forma de projecto de resolução continua: “como documento principal de identificação, um documento cujo nome não cumpre as orientações de não discriminação, de promoção da igualdade entre homens e mulheres e de utilização de uma linguagem inclusiva”.

A promoção da igualdade entre homens e mulheres é um assunto demasiado serio para ser ridicularizado desta forma.

A este proposito, nao resisto a transcrever aqui um post que encontrei no FB:

Fui à Loja dos Seres Humanos Que Convivem em Sociedade, antiga Loja do Cidadão, para perguntar como posso tirar o novo Cartão da Pessoa Humana. Disseram-me que poderia ser num balcão ou na Internet no novo Portal Da Cidadania Unissexo. Perguntei também onde poderia obter informações para criar uma empresa e desde logo fui encaminhado para o Balcão dos Seres Adeptos do Empreendedorismo, antigo Balcão do Empreendedor. Agradeci. Ao chegar a casa deparei-me com um incêndio no meu prédio e desde logo tentei ligar para o número dos Bombeiros mas disseram-me que a linha tinha sido desactivada e que agora teria de ligar para o Departamento de Pessoas de Ambos os Dois Sexos que Apagam Fogos. Foi o que fiz. Vieram rápido e apagaram o fogo. Havia um ferido que não pode ser assistido porque chamaram os Paramédicos e ninguém atendeu. Os próprios bombeiros, aliás, Pessoas De Ambos os Dois Sexos que Apagam Fogos, não sabiam que agora teriam de chamar as Pessoas Especializadas em Paramedicina. Por sorte, ia a passar um senhor que já fez parte dos Licenciados em Medicina Sem Fronteiras e conseguiu ajudar. A vítima disse que ia processar o Estado e ligou logo para um escritório de Humanos que Exercem Advocacia. O advogado que atendeu disse para ele ligar para o Tribunal dos Direitos do Homem. Do Homem?! Enfim, vai haver sempre pessoas que vão continuar a discriminar as mulheres.

Pois…

Os limites de Socrates e a oportunidade de alguns

Henrique Monteiro numa cronica no Expresso, a proposito de algumas acusações de Socrates, afirmava:

A primeira declaração é que não faço a menor ideia se Sócrates é, ou não, culpado de qualquer coisa pela qual esteja acusado. A segunda é que não tenho ideia de que o nosso Ministério Público, por muitos erros que cometa, se sujeite a lógicas políticas. A terceira é que há um limite para a não reação do Estado (da ministra da Justiça, do Presidente da República, da própria Procuradora ou do Supremo Tribunal) a afirmações públicas com enorme gravidade

Tem toda a razão Henrique Monteiro.

Apenas é estranho que so agora demonstre tao grande indignação e que só a esta ministra se lembre de pedir uma reação. Ou talvez nao…

Para que o Brasil nao esqueça, para que nunca ninguem esqueça

Faz hoje 52 anos que um golpe militar no Brasil instaurou uma ditadura.

A este proposito Leonardo Sakamoto escreveu este post de leitura obrigatória:

“O ódio. Eu não consigo, até agora, entender de onde vinha tanto, tanto ódio.”

A dúvida de Maria Aparecida bem caberia na polarização tacanha de 2016, em que deixamos de nos reconhecer como semelhantes simplesmente por pensarmos diferente, passamos a enxergar inimigos em cada esquina. Mas é mais antiga.

Durante as sessões de tortura realizadas no 36o Distrito Policial (local que abrigou a Oban e, posteriormente, o DOI-Codi, na capital paulista), durante a ditadura civil-militar, os vizinhos do bairro residencial do Paraíso reclamavam dos gritos de dor e desespero que brotavam de lá.

Tente dormir tendo, ao lado, um ser humano sendo moído em paus-de-arara, eletrochoques, “cadeiras do dragão” e tantos outros métodos criativos aplicados na resistência por militares e policiais. As reclamações cessavam com rajadas de metralhadora disparadas para o alto, no pátio, deixando claro que aquilo continuaria até que o sistema decidisse parar. Mas o sistema não parava. O sistema nunca para por conta própria.

A noite de Maria Aparecida Costa durou três anos e meio, dos quais dois meses torturada naquele local. “Fiquei presa ali”, apontou para mim o primeiro andar do prédio quando estive com ela no local, há dois anos, para escrever um texto para cá, do qual resgato suas impressões.

A tortura firmava-se como arma da disputa ideológica. Era necessário “quebrar” a pessoa, mentalmente e fisicamente, pelo que ela era, pelo que representava e pelo que defendia. Não era apenas um ser humano que morria a cada pancada. Era também uma visão de mundo, uma ideia.

Ainda hoje, Cida tenta entender o que ocorreu. “Tinha mais alguma coisa. Claro que a justificativa era ideológica. Mas tinha mais alguma coisa. Porque eles sentiam prazer de verdade no que faziam. Prazer de verdade em torturar.”

Talvez o ódio surgia, como lembra Cida, da sensação de poder. De fazer porque se pode fazer enquanto o outro nada pode.

tortura

O Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna DOI-Codi era integrado por membros do Exército, Marinha, Aeronáutica e policiais. E a metodologia desenvolvida durante esse período e a certeza do “tudo pode” continua provocando vítimas em outras delegacias espalhadas pelo país e nas periferias das grandes cidades, onde a vida vale muito pouco.

(E aos leitores com problemas cognitivos que não sabem que a terrível violência cometida pelo Estado tem uma série de agravantes em relação à terrível violência cometida por criminosos comuns, desejo que um dia vocês possam refletir sobre isso.)

Dizem que carrascos não podem pensar muito no que fazem sob o risco de enlouquecerem. Mas também dizem que os melhores carrascos são os psicopatas que gostam do que fazem. E se dedicam com afinco a descobrir novas formas de garantir o sofrimento humano. Muitos dos que fizeram o serviço sujo para a ditadura e passaram pelo prédio do DOI-Codi amavam sua “profissão”.

Não acreditavam simplesmente estar em uma guerra. Se assim fosse, haveria protocolos internacionais proibindo o que foi feito. Muito menos em uma missão divina porque Deus, se existir, nunca ouviu os gritos que saíram de lá. O que havia nas celas era, para eles, a representação do mal. E o mal precisa ser extirpado.

O mal precisa ser extirpado. Tal qual ouvimos hoje: que há pessoas ou grupos que representam o mal e precisam ser extirpados. Eu mesmo já ouvi isso mais de uma vez: “você é um câncer que precisa ser extirpado”. Na superfície dessa afirmação, há ódio. Mas se escavarmos um pouco, chegaremos ao medo e, em seguida, à ignorância sobre o outro.

Décadas depois, há quem tente provar que a história se repete sim, não como farsa, mas como delírio.

Tito de Alencar Lima, o Frei Tito, foi encontrado enforcado no dia 10 de agosto de 1974, durante seu exílio na França, como consequência da tortura que sofreu pelas mãos dos agentes da ditadura militar brasileira. Em 1969, ele foi um dos dominicanos presos pelo torturador Sérgio Paranhos Fleury, delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), acusados de apoiar as ações da resistência contra o regime. O calvário de Tito, da prisão ao suicídio, tornou-se um dos símbolos da luta contra a ditadura.

Trago trechos do testemunho de Tito à Justiça Militar, em 1969, em que conta como foram as sessões de tortura. O depoimento faz parte de ação movida pelo Ministério Público Federal contra os torturadores:

“Na quarta feira, fui acordado às 8 horas, subi para a sala de interrogatórios, onde a equipe do capitão Homero me esperava.

Repetiram as mesmas perguntas do dia anterior. A cada resposta negativa, ou recebia cuteladas na cabeça, nos braços e no peito.

Neste ritmo prosseguiram até o início da noite, quando me serviram a primeira refeição naquelas 48 horas. (…)

Na quinta- feira, três policiais acordaram-me à mesma hora do dia anterior. De estômago vazio, fui para a sala de interrogatórios. Um capitão, cercado por uma equipe, voltou às mesmas perguntas.

Vai ter que falar, senão, só sai morto daqui”, gritou. Logo depois vi que isto não era apenas uma ameaça: era quase uma certeza.

Sentaram-me na “cadeira de dragão” (com chapas metálicas e fios), descarregaram choques nas mãos e na orelha esquerda. A cada descarga, eu estremecia todo, como se o organismo fosse decompor.

Da sessão de choques, passaram-me ao pau-de-arara. Mais choques, pauladas no peito e nas pernas cada vez que elas se curvavam para aliviar a dor.

Uma hora depois, com o corpo todo sangrando e todo ferido, desmaiei. Fui desamarrado e reanimado. Conduziram-me à outra sala, dizendo que passariam a carga elétrica para 230 volts a fim de que eu falasse “antes de morrer”. Não chegaram a fazê-lo.

Voltaram às perguntas, batiam em minhas mãos com palmatórias. As mãos ficaram roxas e inchadas, a ponto de não ser possível fechá-las. Novas pauladas. Era impossível saber qual parte do corpo doía mais: tudo parecia massacrado.

Mesmo que quisesse, não poderia responder às perguntas: o raciocínio não se ordenava mais. Restava apenas o desejo de perder novamente os sentidos.”

O golpe e a ditadura civil-militar ainda são temas que não fazem parte de nosso cotidiano em comparação com outros países que viveram realidades semelhantes e que almejam ser democracias. Por aqui, lidamos com o passado como se ele tivesse automaticamente feito as pazes com o presente. Não, não fez.

Como sempre digo, o impacto de não resolvermos o nosso passado se faz sentir no dia-a-dia das periferias das grandes cidades, em manifestações, nos grotões da zona rural, com o Estado aterrorizando, reprimindo e torturando parte da população (normalmente mais pobre) com a anuência da outra parte (quase sempre mais rica).

Cida é torturada e Tito morre novamente e novamente, todos os dias, no Brasil, sob outros nomes, crenças, gênero ou cor de pele. Normalmente, jovens, negros e pobres.

Neste 31 de março/1o de abril, 52o aniversário do golpe militar de 1964, desejo que a história daquele período continue a ser contada nas escolas até entrarem nos ossos e vísceras de nossas crianças e adolescentes a fim de que nunca esqueçam que a liberdade do qual desfrutam não foi de mão beijada. Mas custou o sangue, a carne e a saudade de muita gente.

Só dessa forma, poderemos garantir que os poucos milhares que hoje clamam por intervenção militar ou pela volta da ditadura continuem a serem vistos pelo restante da sociedade como mal informados, ignorantes ou insanos – e tratados com todo o carinho possível e paciência. Pois, talvez um dia, compreendam o que significa a liberdade que está diante de seus olhos olhos, mas que não conseguem enxergar.