Um tempo novo

Ultrapassada a jornada eleitoral e fechado o ciclo político, é tempo de os partidos se reorganizarem. Nos últimos dois meses o PSD esteve anestesiado e incapaz de se adaptar ao safanão que António Costa deu ao sistema político ao transformar em vitória uma derrota nas legislativas de 4 de outubro. Sem capacidade de reagir, Pedro Passos Coelho confiou que a “geringonça” não funcionaria e que o poder acabaria por lhe cair no colo mais dia, menos dia. A realidade, porém, tem-se revelado distinta e à medida que o tempo passa somos confrontados com legados surpreendentes com impacto financeiro, como o fim do Banif, e confirmamos embustes como o do crédito fiscal decorrente da sobretaxa, “uma desilusão” nas palavras da ex-ministra das Finanças, que depois das eleições ficou reduzido a zero. Ontem descobrimos também que o anterior governo, à mesma velocidade que em Lisboa falava de medidas transitórias – cortes de salários e pensões, por exemplo -, garantia em Bruxelas que estas eram estruturais, isto é, definitivas. Aqui chegados, vivemos de facto um tempo novo. À esquerda é o que se conhece. Pela primeira vez, um governo minoritário do PS conta com o apoio de PCP e Bloco. À direita, o CDS renova-se e faz uma transição pacífica na liderança e no discurso. Consumado o divórcio com o PSD, as principais figuras do partido alinham discursos para a ocupação do centro político que garanta, no futuro, um peso maior na negociação de eventuais coligações de governo e, sobretudo, que assegurem capacidade de influenciar, seja o PSD ou o PS. E Pedro Passos Coelho, a caminho de um congresso, propõe-se regressar à social-democracia em que, manifestamente, nunca esteve. Diz-nos agora o líder do PSD que, depois de quatro anos de “liberalismo forçado” pelo ajustamento que assumiu como seu programa de governo, se julga capaz de recentrar o partido, ocupar o espaço deixado vago pelo PS com a opção que fez de virar à esquerda, recuperando um eleitorado que Passos Coelho acredita estar órfão. A lógica é simples: liberto que está do exercício do poder, o PSD pode pôr na gaveta o pragmatismo da governação e voltar à ideologia. No fundo, uma espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hyde da São Caetano à Lapa. Para isso, como é óbvio, não basta mostrar o busto de Sá Carneiro a cada congresso do partido. E a dúvida legítima é a de saber se quem no passado recente não hesitou em ser mais troikista do que a troika tem hoje condições para protagonizar esta refundação ideológica do PSD.

Editorial de Nuno Saraiva no DN

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