Para que o Brasil nao esqueça, para que nunca ninguem esqueça

Faz hoje 52 anos que um golpe militar no Brasil instaurou uma ditadura.

A este proposito Leonardo Sakamoto escreveu este post de leitura obrigatória:

“O ódio. Eu não consigo, até agora, entender de onde vinha tanto, tanto ódio.”

A dúvida de Maria Aparecida bem caberia na polarização tacanha de 2016, em que deixamos de nos reconhecer como semelhantes simplesmente por pensarmos diferente, passamos a enxergar inimigos em cada esquina. Mas é mais antiga.

Durante as sessões de tortura realizadas no 36o Distrito Policial (local que abrigou a Oban e, posteriormente, o DOI-Codi, na capital paulista), durante a ditadura civil-militar, os vizinhos do bairro residencial do Paraíso reclamavam dos gritos de dor e desespero que brotavam de lá.

Tente dormir tendo, ao lado, um ser humano sendo moído em paus-de-arara, eletrochoques, “cadeiras do dragão” e tantos outros métodos criativos aplicados na resistência por militares e policiais. As reclamações cessavam com rajadas de metralhadora disparadas para o alto, no pátio, deixando claro que aquilo continuaria até que o sistema decidisse parar. Mas o sistema não parava. O sistema nunca para por conta própria.

A noite de Maria Aparecida Costa durou três anos e meio, dos quais dois meses torturada naquele local. “Fiquei presa ali”, apontou para mim o primeiro andar do prédio quando estive com ela no local, há dois anos, para escrever um texto para cá, do qual resgato suas impressões.

A tortura firmava-se como arma da disputa ideológica. Era necessário “quebrar” a pessoa, mentalmente e fisicamente, pelo que ela era, pelo que representava e pelo que defendia. Não era apenas um ser humano que morria a cada pancada. Era também uma visão de mundo, uma ideia.

Ainda hoje, Cida tenta entender o que ocorreu. “Tinha mais alguma coisa. Claro que a justificativa era ideológica. Mas tinha mais alguma coisa. Porque eles sentiam prazer de verdade no que faziam. Prazer de verdade em torturar.”

Talvez o ódio surgia, como lembra Cida, da sensação de poder. De fazer porque se pode fazer enquanto o outro nada pode.

tortura

O Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna DOI-Codi era integrado por membros do Exército, Marinha, Aeronáutica e policiais. E a metodologia desenvolvida durante esse período e a certeza do “tudo pode” continua provocando vítimas em outras delegacias espalhadas pelo país e nas periferias das grandes cidades, onde a vida vale muito pouco.

(E aos leitores com problemas cognitivos que não sabem que a terrível violência cometida pelo Estado tem uma série de agravantes em relação à terrível violência cometida por criminosos comuns, desejo que um dia vocês possam refletir sobre isso.)

Dizem que carrascos não podem pensar muito no que fazem sob o risco de enlouquecerem. Mas também dizem que os melhores carrascos são os psicopatas que gostam do que fazem. E se dedicam com afinco a descobrir novas formas de garantir o sofrimento humano. Muitos dos que fizeram o serviço sujo para a ditadura e passaram pelo prédio do DOI-Codi amavam sua “profissão”.

Não acreditavam simplesmente estar em uma guerra. Se assim fosse, haveria protocolos internacionais proibindo o que foi feito. Muito menos em uma missão divina porque Deus, se existir, nunca ouviu os gritos que saíram de lá. O que havia nas celas era, para eles, a representação do mal. E o mal precisa ser extirpado.

O mal precisa ser extirpado. Tal qual ouvimos hoje: que há pessoas ou grupos que representam o mal e precisam ser extirpados. Eu mesmo já ouvi isso mais de uma vez: “você é um câncer que precisa ser extirpado”. Na superfície dessa afirmação, há ódio. Mas se escavarmos um pouco, chegaremos ao medo e, em seguida, à ignorância sobre o outro.

Décadas depois, há quem tente provar que a história se repete sim, não como farsa, mas como delírio.

Tito de Alencar Lima, o Frei Tito, foi encontrado enforcado no dia 10 de agosto de 1974, durante seu exílio na França, como consequência da tortura que sofreu pelas mãos dos agentes da ditadura militar brasileira. Em 1969, ele foi um dos dominicanos presos pelo torturador Sérgio Paranhos Fleury, delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), acusados de apoiar as ações da resistência contra o regime. O calvário de Tito, da prisão ao suicídio, tornou-se um dos símbolos da luta contra a ditadura.

Trago trechos do testemunho de Tito à Justiça Militar, em 1969, em que conta como foram as sessões de tortura. O depoimento faz parte de ação movida pelo Ministério Público Federal contra os torturadores:

“Na quarta feira, fui acordado às 8 horas, subi para a sala de interrogatórios, onde a equipe do capitão Homero me esperava.

Repetiram as mesmas perguntas do dia anterior. A cada resposta negativa, ou recebia cuteladas na cabeça, nos braços e no peito.

Neste ritmo prosseguiram até o início da noite, quando me serviram a primeira refeição naquelas 48 horas. (…)

Na quinta- feira, três policiais acordaram-me à mesma hora do dia anterior. De estômago vazio, fui para a sala de interrogatórios. Um capitão, cercado por uma equipe, voltou às mesmas perguntas.

Vai ter que falar, senão, só sai morto daqui”, gritou. Logo depois vi que isto não era apenas uma ameaça: era quase uma certeza.

Sentaram-me na “cadeira de dragão” (com chapas metálicas e fios), descarregaram choques nas mãos e na orelha esquerda. A cada descarga, eu estremecia todo, como se o organismo fosse decompor.

Da sessão de choques, passaram-me ao pau-de-arara. Mais choques, pauladas no peito e nas pernas cada vez que elas se curvavam para aliviar a dor.

Uma hora depois, com o corpo todo sangrando e todo ferido, desmaiei. Fui desamarrado e reanimado. Conduziram-me à outra sala, dizendo que passariam a carga elétrica para 230 volts a fim de que eu falasse “antes de morrer”. Não chegaram a fazê-lo.

Voltaram às perguntas, batiam em minhas mãos com palmatórias. As mãos ficaram roxas e inchadas, a ponto de não ser possível fechá-las. Novas pauladas. Era impossível saber qual parte do corpo doía mais: tudo parecia massacrado.

Mesmo que quisesse, não poderia responder às perguntas: o raciocínio não se ordenava mais. Restava apenas o desejo de perder novamente os sentidos.”

O golpe e a ditadura civil-militar ainda são temas que não fazem parte de nosso cotidiano em comparação com outros países que viveram realidades semelhantes e que almejam ser democracias. Por aqui, lidamos com o passado como se ele tivesse automaticamente feito as pazes com o presente. Não, não fez.

Como sempre digo, o impacto de não resolvermos o nosso passado se faz sentir no dia-a-dia das periferias das grandes cidades, em manifestações, nos grotões da zona rural, com o Estado aterrorizando, reprimindo e torturando parte da população (normalmente mais pobre) com a anuência da outra parte (quase sempre mais rica).

Cida é torturada e Tito morre novamente e novamente, todos os dias, no Brasil, sob outros nomes, crenças, gênero ou cor de pele. Normalmente, jovens, negros e pobres.

Neste 31 de março/1o de abril, 52o aniversário do golpe militar de 1964, desejo que a história daquele período continue a ser contada nas escolas até entrarem nos ossos e vísceras de nossas crianças e adolescentes a fim de que nunca esqueçam que a liberdade do qual desfrutam não foi de mão beijada. Mas custou o sangue, a carne e a saudade de muita gente.

Só dessa forma, poderemos garantir que os poucos milhares que hoje clamam por intervenção militar ou pela volta da ditadura continuem a serem vistos pelo restante da sociedade como mal informados, ignorantes ou insanos – e tratados com todo o carinho possível e paciência. Pois, talvez um dia, compreendam o que significa a liberdade que está diante de seus olhos olhos, mas que não conseguem enxergar.

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Se Dilma cair, a Lava Jato é cancelada.

Em 12 anos do PT no Planalto, PF fez 2.226 operações; com FHC, foram 48. Para pensar…

incomodativa

Com 51,64% dos votos válidos, contra os 48,36% obtidos pelo candidato Aécio Neves, Dilma Roussef venceu o segundo turno das eleições presidenciais de 2014. A disputa foi acirrada pelas revelações da Operação Lava Jato, levando à escandalosa capa da revista Veja: “Eles sabiam de tudo“, disponível nas bancas três dias antes do segundo turno. Um escândalo! Ainda assim, Dilma ganhou.

No dia seguinte às eleições, houve a primeira manifestação pró-impeachment, convocada via facebook, com previsão de 30.000 pessoas e atendida por apenas 30, levando ao comentário sarcástico de que os “robôs não comparecem” ao evento. Passados seis dias das eleições, em 1º de novembro, São Paulo ouviu o clamor de 2.500 pessoas pelo impeachment da presidente reeleita; falava-se em intervenção das forças armadas, instauração de governo militar e o despacho de petistas à Cuba. Duas semanas depois, em 15 de novembro, nova manifestação tomou as ruas…

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A divulgação de escutas

Li um post, sobre a polemica da divulgaçao de escutas pela comunicaçao social no blogue  Aspirina B, que considero uma pequena delicia:

"Acho que, a partir do momento em que elas estão no espaço público [as escutas a Sócrates], parece estranho fingir que elas não estão. Houve uma pessoa qualquer que se levantou num programa de televisão para não comentar escutas. Isso não faz sentido, pois apesar de tudo estão no espaço público, acho um preciosismo. Tudo isto é divertido, tudo isto nos ajuda a formar uma convicção; que neste caso percebe-se qual é... Qualquer pessoa que a ouça, não é? Quando ouves aquilo, quase só mesmo o círculo mais próximo dele é que não fica com aquela convicção."

(licenciado em Direito pela Católica, crítico, cronista, poeta, editor, argumentista, dramaturgo, pioneiro da blogosfera, jurado do Prémio Camões, do Clube Português de Artes e Ideias, da Fundação Luís Miguel Nava, do Instituto Camões, das Correntes d’Escritas/Casino da Póvoa, da Sociedade Portuguesa de Autores, da Associação Portuguesa de Escritores e da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, bem como dos festivais de cinema IndieLisboa e Curtas Vila do Conde, é membro efectivo do júri dos prémios literários atribuídos anualmente pela Fundação Inês de Castro, Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, subdirector e director interino da Cinemateca Portuguesa entre 2008 e 2010, celebridade mediática, consultor presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa)

*

Acho que a partir do momento em que elas estão no espaço público [as fotos gamadas de um telemóvel onde se vê a proprietária do aparelho nua e em actos sexuais], parece estranho fingir que elas não estão. Houve uma pessoa qualquer que se levantou num programa de televisão para não comentar fotos gamadas dos telemóveis ou computadores pessoais. Isso não faz sentido, pois apesar de tudo estão no espaço público, acho um preciosismo. Tudo isto é divertido, tudo isto nos ajuda a formar uma convicção; que neste caso percebe-se qual é… Qualquer pessoa que as veja, não é? Quando vês aquilo, quase só mesmo o círculo mais próximo dela é que não fica com aquela convicção.

Acho que a partir do momento em que elas estão no espaço público [as escutas às conversas sigilosas entre advogados e os seus clientes], parece estranho fingir que elas não estão. Houve uma pessoa qualquer que se levantou num programa de televisão para não comentar escutas às conversas sigilosas entre advogados e clientes. Isso não faz sentido, pois apesar de tudo estão no espaço público, acho um preciosismo. Tudo isto é divertido, tudo isto nos ajuda a formar uma convicção; que neste caso percebe-se qual é… Qualquer pessoa que as ouça, não é? Quando ouves aquilo, quase só mesmo o círculo mais próximo deles é que não fica com aquela convicção.

Acho que a partir do momento em que ela está no espaço público [a correspondência privada entre duas pessoas que não autorizaram a sua publicação], parece estranho fingir que ela não está. Houve uma pessoa qualquer que se levantou num programa de televisão para não comentar correspondência privada publicada à revelia dos seus autores. Isso não faz sentido, pois apesar de tudo está no espaço público, acho um preciosismo. Tudo isto é divertido, tudo isto nos ajuda a formar uma convicção; que neste caso percebe-se qual é… Qualquer pessoa que a leia, não é? Quando lês aquilo, quase só mesmo o círculo mais próximo deles é que não fica com aquela convicção.

Acho que a partir do momento em que eles estão no espaço público [os relatórios de saúde roubados de um centro médico], parece estranho fingir que eles não estão. Houve uma pessoa qualquer que se levantou num programa de televisão para não comentar relatórios de saúde roubados num centro médico. Isso não faz sentido, pois apesar de tudo estão no espaço público, acho um preciosismo. Tudo isto é divertido, tudo isto nos ajuda a formar uma convicção; que neste caso percebe-se qual é… Qualquer pessoa que os veja, não é? Quando vês aquilo, quase só mesmo o círculo mais próximo desses pacientes é que não fica com aquela convicção.

Acho que a partir do momento em que ele está no espaço público [o diário perdido de uma criança de 10 anos], parece estranho fingir que ele não está. Houve uma pessoa qualquer que se levantou num programa de televisão para não comentar o diário perdido de uma criança de 10 anos. Isso não faz sentido, pois apesar de tudo está no espaço público, acho um preciosismo. Tudo isto é divertido, tudo isto nos ajuda a formar uma convicção; que neste caso percebe-se qual é… Qualquer pessoa que o leia, não é? Quando lês aquilo, quase só mesmo o círculo mais próximo da criança é que não fica com aquela convicção.

Acho que a partir do momento em que ele está no espaço público [o vídeo onde um familiar ou amigo da pessoa acima citada aparece embriagado ou numa crise psíquica], parece estranho fingir que ele não está. Houve uma pessoa qualquer que se levantou num programa de televisão para não comentar o vídeo do meu familiar/amigo. Isso não faz sentido, pois apesar de tudo está no espaço público, acho um preciosismo. Tudo isto é divertido, tudo isto nos ajuda a formar uma convicção; que neste caso percebe-se qual é… Qualquer pessoa que o veja, não é? Quando vês aquilo, quase só mesmo o círculo mais próximo dele é que não fica com aquela convicção. É o meu caso, aliás, não tenho nada aquela convicção.

Fonte: Aspirina B

Francois Hollande que desilusao

Mohammed bin Nayef, o principe herdeiro saudita, responsável por uma chacina no inicio deste ano, 47 decapitaçoes, foi este mes agraciado pelo presidente francês com a Legião de Honra, máxima condecoração atribuída no Hexágono.

Dizem as mas línguas que esta distinção terá a ver com o facto de os sauditas estarem entre os melhores clientes de armamento dos franceses.

O primado do dinheiro sobre os valores humanos esta aqui bem explicito.

Isto da vómitos!

É preciso secar as raízes ao terror

Indignação, condenação, condolências, solidariedade: tal como nos atentados de Paris, volta a registar-se uma onda de quase unanimidade contra os actos terroristas que agora atingiram o coração da Bélgica – que é também, simbolicamente, o coração da União Europeia. Mas este ciclo, onde a brutalidade do terror e a dor das vítimas alternam com manifestações de solidariedade internacional e com um reforço da segurança nos países atingidos, pode repetir-se vezes sem conta se não se for mais fundo no ataque às origens de tal calamidade. A começar por um ponto de que se vai falando mas que raramente se enfrenta com seriedade e eficácia: as fontes de financiamento dos grupos terroristas, envoltas numa teia que move demasiados interesses e que tem subsistido praticamente incólume, enquanto forças policiais e militares vão neutralizando alguns “ramos” sem conseguirem ir à “raiz”.

É bom recordar que os atentados de Bruxelas ocorrem escassos dias após a prisão (em Bruxelas, precisamente) de Salah Abdeslam, um dos implicados nos atentados de Paris; e também da divulgação, com algum furor mediático, de listas com milhares de nomes de supostos militantes do EI; ou seja, duas aparentes derrotas dos “soldados do Califado”, os mesmos que vieram agora reivindicar os odiosos atentados em Bruxelas.

E é bom recordar também que, por estes dias, outros atentados terroristas ocorreram, na Turquia (Ancara e Istambul) e na Costa do Marfim, sempre em lugares públicos e contra civis.

Ora, ao mesmo tempo que na Síria as bombas russas e americanas terão provocado estragos nos domínios do EI, a propagação de atentados na Europa e fora dela terá como objectivos imediatos, conforme explicava no Guardian Jason Burke, especialista em islamismo radical, “mostrar que ainda podem aterrorizar, mobilizar e polarizar com recurso à violência. Isto não se trata tanto de vingança, mas simplesmente demonstrar uma habilidade ininterrupta.” Mostrar que não estão acabados. E como serão uma rede implantada com alguma segurança, não franco-atiradores que viajariam com os refugiados (e esta tese tem vindo a ser defendida com intuitos xenófobos), terão mais facilidade em agir. Nos campos de refugiados, pelo contrário, tal como nos meios árabes que não alinham com os terroristas (mas que correm, mais uma vez, irracionalmente, o risco de serem confundidos com eles), as reacções são de indignação. O cartaz empunhado horas depois dos ataques por um jovem filho de refugiados, entre os muitos que se encontram barrados na fronteira da Grécia com a Macedónia, expressa esse sentimento numa só frase: “Sorry for Brussels”. Também lamentamos a sua sorte, e a de outros tantos que ali procuram a vida e não o sangue, mas no torvelinho de emoções que tudo mistura e confunde, os inocentes continuam a pagar pelos culpados. E a hidra terrorista continuará a matar, enquanto lhe permitirem alimentar-se na sombra. Não basta, por isso, chorar as vítimas a cada novo atentado. Em vez de blindar fronteiras ou limitar cada vez mais as liberdades, é preciso agir para que o terror não tenha uma só mão conivente com os seus crimes. Não será fácil, porque há quem lucre com isso, mas é indispensável para respirarmos em paz.

Editorial no Publico

Brasil: Quo vadis?

Um excelente retrato da actual situaçao politica no Brasil feito por Antonio Teodoro no seu blogue Jardim das delicias

Estou neste momento a viver em S. Paulo, o que me permite acompanhar, hora a hora, a crise brasileira, tanto por intermédio da mídia (como dizem e escrevem os nossos amigos brasileiros) como, sobretudo, pelo contacto com as pessoas, professores e estudantes na Universidade, e cidadãos de classe média alta num dos bairros mais seletos de S. Paulo. E acompanho, pelas redes sociais e o noticiário em Portugal, os ecos desta crise brasileira que, se não fosse demasiado grave e mexesse com as vidas de milhões de pessoas, podia ser considerada uma tragicomédia.

Permitam-me que dê a minha interpretação sobre o que está a suceder no Brasil e dos possíveis desenvolvimentos da situação extremamente complexa que se vive. Uma situação que, segundo descrevem os meus amigos mais velhos, é muito parecida com a dos anos que antecederam o golpe de Estado de 1964, com a diferença de que, agora, enquanto os militares estão silenciosos e com uma (aparente) postura institucional respeitadora da Constituição, são os juízes (ou uma parte do poder judicial) que se assumem como os “justiceiros” que têm a missão de regenerar o País.

Os problemas existentes decorrem diretamente de três situações próximas e já bem definidas: (i) a derrota do candidato das elites nas últimas eleições presidenciais (que, num regime presidencialista como o brasileiro, são também de Governo), a quarta consecutiva, por uma pequena margem e com uma divisão de votos muito marcada em termos de classe e de região; (ii) as consequências da Operação Lava Jato que, de uma operação judicial (e policial) de combate à corrupção, envolvendo e mostrando uma poderosa teia de financiamentos partidários e enriquecimento ilícito de agentes públicos (políticos, empresários e gestores), evoluiu para um golpe de Estado a partir de parte do sistema judicial (e policial), em conluio com a mídia conservadora (com destaque para a rede Globo e as revistas Veja e Isto É); e, (iii) uma conjugação da crise económica com uma crise de governabilidade, onde a primeira piorou a vida dos brasileiros e a segunda colocou o sistema político à beira da implosão, com alguns dos grandes empresários nacionais presos (e as suas empresas em grandes dificuldades, gerando desemprego em massa) e um número elevado de deputados e senadores indiciados por crimes de corrupção, entre os quais os presidentes das duas câmaras do poder legislativo.

Num país com as desigualdades do Brasil, a metáfora da Casa Grande e da Sanzala (título do famoso livro do sociólogo Gilberto Freyre) ainda é a que melhor se adequa à descrição do tecido social brasileiro. As gravuras de Debret do século XIX, retratando as famílias do Rio de Janeiro passeando com os seus escravos, e as fotos daquela outra família do diretor financeiro de um grande clube de futebol, onde ele, a mulher e o caniche seguem à frente, acompanhados pela babá negra, fardada de branco, que leva os dois filhos do casal, a caminho de uma manifestação contra a Dilma e pelo impeachment, representam uma mesma realidade que mais de 150 anos ainda não conseguiu apagar. Para quem julga que estou a exagerar e essa foto representa um caso isolado, aconselho a, quando visitar S. Paulo, passear num shopping de luxo ou no bairro onde vivo.

A Casa Grande não se conformou com a derrota das últimas eleições presidenciais e temeu ainda mais a possibilidade do ex-Presidente Lula se voltar a candidatar (e poder ganhar de novo). Para que isso não pudesse acontecer, a grande mídia (mantenho o registo na escrita do português brasileiro) desenvolveu uma sistemática e persistente destruição do capital simbólico do antigo metalúrgico sindicalista (que saiu do Governo com uma aprovação superior a 80%, um valor sem precedentes na política brasileira), aproveitando muitos “rabos de palha” que, ele e sua família, e sobretudo a cúpula do PT, foram deixando e que revelam uma deterioração dos valores republicanos que deviam nortear todos aqueles que se batem por projetos de transformação social. Mas essa destruição do capital simbólico não foi suficiente. As últimas sondagens, no auge da revelação dos escândalos do “triplex do Guarujá” ou do “sítio de Atibaia” (que Lula jura que não são sua propriedade), mostram que Lula tem condições de disputar e poder ganhar de novo a Presidência da República.

Para isso, a Casa Grande, que, politicamente, é representada por uma complexa aliança de interesses capitaneados por um partido herdeiro da Arena (o partido da ditadura militar, hoje batizado de Democratas) e do PSDB, que tem em Fernando Henrique Cardoso o seu principal símbolo (há pouco mais de um ano vi-o, na Casa de Portugal, elogiar as grandes capacidades de “estadista” e de governante lúcido, imagine-se, a Pedro Passos Coelho) e putativos candidatos como o playboy Aécio Neves, ou o militante da Opus Dei Geraldo Alckmin, decidiu lançar uma ofensiva em várias frentes:

1. Criminalizar Lula e, se necessário, prendê-lo para impedir o seu regresso à vida política ativa.
2. Concretizar o impeachment da Presidente Dilma, derrubando o seu Governo.
3. Mudar algumas opções de política económica que permita ao capital financeiro ocupar o espaço deixado pelas empresas cujos dirigentes estão presos e, sobretudo, não ter o limite do “petróleo é nosso” (vigente desde o final da II Guerra), abrindo a exploração das imensas riquezas do pré-sal às grandes multinacionais do petróleo.
4. Destruir o PT (e o seu aliado próximo, o PCdoB) e impedir que, nos tempos mais próximos, a esquerda tenha influência eleitoral e possa dirigir um país com a dimensão do Brasil.

É neste contexto que tem de ser entendida a decisão de nomear Lula Ministro da Casa Civil, ou seja, uma espécie de Primeiro Ministro nos regimes semipresidenciais, responsável pela articulação política e pela implementação do PAC (Programa de Aceleração e Crescimento). Essa entrada de Lula no Governo Dilma responde a duas necessidades imperiosas: (i) evitar a prisão preventiva de Lula, transferindo a competência da investigação e julgamento do “justiceiro” e mediático juiz de 1ª instância de Curitiba, Sérgio Moro, titular do processo da Lava Jato, para o Supremo Tribunal Federal, o único com competência para investigar e julgar titulares de órgãos de soberania; (ii) dar uma direção política à ação do Governo e reunir apoios para impedir a concretização do impeachment de Dilma.

Num depoimento publicado no Diário de Notícias de 17.03.2016, o Embaixador Seixas da Costa, que teve uma notável atuação enquanto responsável pela Embaixada de Portugal no Brasil há uns anos atrás, durante o mandato de Lula, chamou a essa entrada de Lula no Governo a “bala de prata”. Não concordo com o essencial do seu depoimento, embora concorde que esse gesto foi uma decisão muito arriscada, utilizada por Lula e Dilma para tentarem sair de um cerco extremamente apertado, onde um juiz de 1ª instância tem poderes para realizar escutas telefónicas (“grampear”) à Presidente da República, ou divulgar (“vazar”) para a comunicação social essas gravações no momento em que deixou de ter competência jurídica para acompanhar o processo; ou, onde um outro juiz de 1ª instância que, no Twiter e Facebook, se tinha vangloriado da sua participação nas manifestações anti-Dilma (postando inclusive no Facebook as inevitáveis selfies) se sente à vontade para impugnar um ato da Presidente, neste caso a nomeação de um Ministro que, legalmente, não está sequer indiciado de qualquer crime.

O uso da “bala de prata” é talvez o último recurso ao dispor de Lula e Dilma. Se perderem, caem os dois, o PT (e o conjunto da esquerda entrará em grande convulsão) e o Brasil tornar-se-á o eldorado de um neoliberalismo serôdio próprio das elites subalternas. Aqueles que acham que isto é discurso ideológico vejam qual a política que Estados que têm governadores do PSDB estão a tentar implementar (embora sem grande sucesso até agora, diga-se, devido à forte oposição de estudantes, professores e sociedade civil organizada): a entrega das escolas públicas a empresas privadas, um arremedo das charters schools, bandeira dos governos Bush pai e Bush filho nos EUA.

Os próximos dias serão decisivos. A decisão está também nas mãos daqueles que vivem na Sanzala. Até agora, quem saiu à rua e se pronuncia com os imensos meios que têm ao seu dispor, foram os que vivem na Casa Grande. A Sanzala tem estado na defensiva e silenciosa, por falta de projeto mobilizador e por desmoralização. Se Lula conseguir a mobilização da Sanzala, estabelecer pontes e alianças para alguns sectores da Casa Grande que ainda estão reticentes com o caminho que lhes é proposto, o Brasil pode retomar o caminho de transformações sociais que tiraram da miséria mais de 40 milhões de pessoas num espaço curto de uma década. Mas isso, implicará também, depois de um primeiro embate e da derrota do golpe de Estado em curso, uma renovação moral e um novo projeto político. Se Lula, o PT e as esquerdas não o fizer, a Sanzala não lhes perdoará, abandonando-os à sua sorte

Lula e a justiça

As supostas ilações que são feitas – de que o Lula iria para o Ministério para não ser investigado – são absolutamente falsas à medida que todos sabem que o Supremo Tribunal Federal tem sido muito mais rigoroso nas investigações que realiza. Foi assim com ex-ministros e com dirigentes do Partido dos Trabalhadores. Se eventualmente tiver que ser investigado por alguma coisa, nunca foi do seu perfil fugir da responsabilidade. Nós entendemos que é algo muito maior, pelo seu significado, pela sua repercussão e pela sua importância, e estamos bastante motivados e confiantes de que ele, nas próximas horas, possa atender o convite da presidente.

O Presidente Lula sempre esteve à disposição das autoridades. Nós achamos que há uma condução seletiva, por parte de setores do Ministério Público Federal, da Polícia Federal, com a retaguarda que recebem da grande imprensa do país, dos interesses do capital internacional, que está por trás também de boa parte dessa questão, dessa polêmica. Mas de maneira nenhuma [é admissão de culpa], até porque a legislação brasileira não veda que alguém seja investigado em função do alto cargo que esteja exercendo, é só uma definição de competência.

Reduzir a isso a possibilidade do Lula vir para o Governo é não entender a dimensão, o alcance e a importância política que esse gesto tem para o Brasil, para sua política e fundamentalmente para a sua economia.

Fonte: Paulo Pimenta ao  Sputnik Brasil

Que a oposição insista na tese da fuga a justiça compreende-se, mas ja fica mais difícil compreender que a imprensa portuguesa insista nisso esquecendo que a ideia de Lula integrar o governo é algo que ja vem sendo pedido por sectores do PT, de forma a que pudesse utilizar a sua capacidade de negociador obtendo os apoios necessários que impeçam a destituição de Dilma.

Se Lula for culpado de algum crime nao será o facto de ser ministro que o salvará da condenação.


Pobres valores europeus

Estes sao os valores europeus do respeito pela dignidade humana, da liberdade, da democracia, da igualdade e do respeito pelos direitos humanos, incluindo os direitos das pessoas pertencentes a minorias.

A grande demonstração destes valores foi feita ontem em Madrid, antes do jogo do Atletico com o PSV, pelos adeptos holandeses. Conforme se poder confirmar pelos dois videos que se seguem.

Fonte: Expresso

O segundo video pode ser visto aqui

 

Três milhões veem telenovelas em português. A culpa é do Nico

Pai da ficção portuguesa, produtor, professor. Das telenovelas ao humor e à apresentação, o grande ator nada deixou por fazer. Morreu ontem aos 75 anos

Foto DN

Foto DN

Hoje à noite, quem ligar a televisão na SIC, na RTP1 ou na TVI, verá uma novela em cada um dos canais. Tramas faladas em português, que ocupam os lugares cimeiros das tabelas de audiências. Isso deve-se a Nicolau Breyner. Foi ele que, no início da década de 1980, ajudou a criar Vila Faia, a primeira novela made in Portugal. “Nós fomos os pioneiros do falar português, os heróis que pusemos um projeto nacional de telenovela a funcionar.” Estávamos em 1983. Eram as palavras de Nicolau ao Expresso.

Seriam precisos quase 20 anos para que as tramas nacionais destronassem a ficção da Globo mas a paternidade, essa, ninguém a tirará a Nicolau. “Fizemos muita coisa juntos, como a primeira novela portuguesa, a Vila Faia, na qual o Nico fez um trabalho notável. Foram momentos épicos, agora é mais fácil. Na altura não havia meios, tivemos de inventar tudo, lidando com muita desconfiança. Ninguém acreditava que se pudesse fazer uma novela em Portugal, mas a partir daí isto nunca mais acabou”, recorda Francisco Nicholson, guionista da trama onde Nico era João Godunha.

A influência de Nicolau Breyner na TV colocam-no na posição de pai fundador daquilo que é o entretenimento à portuguesa. “O Nico fez uma diferença enorme nos seus colegas e no meio, tanto na televisão como no cinema e no teatro, para pessoas de várias gerações”, recorda Teresa Guilherme. Primeiro na ACT – Escola de Atores, que ajudou a criar em 2001 e depois na NBA (Nicolau Breyner Academia), fundada em 2014, o ator fez questão de passar o seu conhecimento aos mais novos. Ensinar era-lhe natural. O legado está, assim, assegurado.

Que descanse em paz.

Fonte: DN