A bastonária que se armou em Donald Trump

As coisas já não nos chegam cá com o efeito tardio com que o Sud-Express obrigava Eça a esperar pelas novidades de Paris. Das Américas, Trump diz coisas da boca para fora e logo, por cá, a bastonária dos Enfermeiros decide entrar numa discussão delicada, a eutanásia, sem o bastão da autoridade, mas o cajado.

Empossada bastonária em janeiro, Ana Rita Cavaco deu uma entrevista à Rádio Renascença, no sábado. Falando da eutanásia, diz que sabe de casos: “(…) houve médicos que sugeriram…” Depois, disse: “(…) quem nos está a ouvir e trabalha no Serviço Nacional de Saúde sabe que estas coisas acontecem.” E, enfim, desdiz-se: “Eu não estou a dizer que as pessoas o fazem, estou a dizer é que temos que falar sobre elas.”

Afinal, as novidades já nos chegam de imediato, mas temperadas à moda branda que é tão nossa. Entre nós, até o cajado é dúbio. A bastonária sabe, mas não sabe. Sabe de zunzuns que ouviu, mas não de injeções que nunca viu. Entretanto, o escândalo está montado.

A eutanásia exige mais do que um comentário sobre a nomeação do árbitro para o próximo Sporting-Benfica. É um assunto delicado e doloroso. Sobre ela são possíveis posições antagónicas e ambas dignas. De quem a simples ideia de escolher a sua morte é tabu. E de quem considera que a sua própria morte é a últimas das liberdades.

Há um mês, foi lançado o manifesto cívico “Direito a morrer com dignidade”, que se propunha discutir a despenalização e regularização da morte assistida. Os promotores do manifesto, de vários quadrantes (da ex-ministra da Justiça Paula Teixeira da Cruz ao médico Sobrinho Simões), defendem um direito e estavam dispostos a discuti-lo. Eles põem a questão assim: um doente, informado e consciente, que esteja em grande sofrimento e sem esperança de cura, pode pedir – e podendo, terá de pedir de forma reiterada e inequívoca – que a sua morte seja abreviada?

Admite-se que haja pessoas para quem a simples questão repugne. Admite-se também quem a considere um direito inalienável. Desviar a discussão, como já fez a bastonária da Ordem dos Enfermeiros, é de uma irresponsabilidade, que não rima com enfermeiro, nem ordem, nem bastonária.

Ferreira Fernandes no DN

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