Os cinquentinhas

Com a banca nacional a atravessar uma grave crise de liquidez e com a necessidade de investimento como de pão para a boca, a Lei que permite ao fisco vasculhar contas acima de cinquenta mil euros vem mesmo na altura perfeita. 

Isto para não falar no poder que a AT já tem e na forma arrogante, e sem controlo, com que o exerce.  

Marcelo esteve bem no veto.  Esta é uma lei estúpida e inoportuna.  

Sr Ministro cale-se!

Esta sexta em famalicao o Ministro da economia lembrou-se de apelar ao “civismo” da população da fronteira com Espanha, pedindo-lhe para que não abasteça os depósitos dos seus carros nos postos do país vizinho.

Sr Ministro aquilo que os portugueses poupam indo abastecer os carros a Espanha serve para, em muitos casos, por comida na mesa.

Neste caso apelar ao civismo de barriga cheia é facil, apelar a quem tem a barriga cheia faz sentido, mas faze-lo a quem vive mal é feio, muito feio, para nao dizer outra coisa Sr Ministro!

Foi isto que foi PM durante 4 anos?

Numa entrevista a SIC, Passos Coelho a proposito da restruturação da divida diz esta pérola:

As pessoas que defendem a reestruturação da dívida devem informar os portugueses com clareza sobre o que resulta dessa decisão. Quem propõe reestruturações da dívida nestes termos tem de estar preparado para viver com o que tem. Viver com o que tem é viver sem défice. Não temos petróleo, não temos outras riquezas, como fazemos?

O argumento de passos contra a restruturação da divida é este: Nao, porque temos que viver com o que nao temos, e esqueçam la o défice que isso é uma grande treta.

Fiquei mesmo confuso, o Pedro disse mesmo isto??

Banca nacional: e ninguém cora de vergonha?

Como é que quem nao tem vergonha ha-de corar por vergonha?

A Estátua de Sal

(Nicolau Santos, in Expresso, 27/02/2016)

nicolau

O anúncio de que o Novo Banco registou prejuízos de €980,6 milhões em 2015 e que provavelmente só terá lucros em 2017 é estarrecedor. Se um banco, que nasceu com o conta-quilómetros a zero, como anunciou o governador do Banco de Portugal; se um banco que viu o seu passivo expurgado dos ativos tóxicos; se um banco que arrancou com um capital inicial de €4900 milhões, dos quais 3900 milhões garantidos pelos contribuintes; se um banco que no final de 2015 viu retirados das suas responsabilidades mais €1900 milhões de cinco emissões de dívida sénior, que passaram para o BES “mau”; se um banco que tem um presidente emprestado por uma das maiores instituições financeiras europeias, o Lloyds Bank; pois se um banco com todas estas condições, estes apoios e estas redes de proteção mesmo assim consegue apresentar prejuízos de quase mil milhões de euros…

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Poderá o Reino Unido sobreviver ao Brexit?

O referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia que será realizado, quase certamente, este ano, poderá vir a ser mais uma grande catástrofe a atingir a Europa. Se os eleitores britânicos escolherem sair, como parece cada vez mais plausível, o resultado será uma UE fortemente desestabilizada – e um Reino Unido despedaçado.

 O problema é que, com a UE aparentemente atolada numa crise perpétua, o “Brexit” carrega um fascínio intelectual e emocional significativo. Mesmo antes de os problemas de dívida da Zona Euro terem emergido em 2009-2010, parecia claro para muitos britânicos que, para resistir a choques, uma união monetária exige uma maior integração, em particular, alguma forma de união orçamental. Por outras palavras, a Europa precisa de agir mais como um Estado-nação. E essa é uma condição que o Reino Unido nunca esteve disposto a respeitar.

 E, ao nível emocional, o medo da imigração em grande escala, de dentro e fora da UE, tem alimentado uma reacção populista, que a recente crise de refugiados intensificou. A resposta populista baseia-se no argumento bizarro, mas evidentemente ressonante, de que a Europa – ou, mais especificamente, a Alemanha – está a incentivar os fluxos de refugiados.

 Ao mesmo tempo, os defensores da permanência do Reino Unido na UE têm feito um erro atrás do outro. Aparentemente, muitos depositaram as suas esperanças na expectativa irrealista de que poderiam renegociar os tratados da UE. Em particular, apresentaram argumentos para enfraquecer elementos cruciais do processo de integração europeia, especialmente no que diz respeito à mobilidade laboral.

 Além disso, a facção pró-UE tem alertado sobre o choque económico que o Brexit causaria. Pode ter parecido uma estratégia razoável, mas o medo não é racional; ele pode muito bem conduzir os eleitores para as aparentes certezas oferecidas pelo Estado-nação.

 E poderia haver uma maneira menos atraente de apresentar a história europeia do que com a sigla do principal grupo de lóbi pró-europeu “Britain Stronger in Europe”? “BSE”, afinal de contas, chama a atenção para a encefalopatia espongiforme bovina, ou “doença das vacas loucas”, uma doença degenerativa de evolução lenta mas fatal. Não estará também a UE num lento declínio?

 O fortalecimento da facção anti-UE é muito perigoso, e não apenas para a UE. Se os eleitores britânicos concordarem que a estrutura da UE é tão defeituosa que eles não querem fazer parte dela, estarão, implicitamente, a condenar a união peculiar que é o Reino Unido, que inclui uma união orçamental – ainda por cima problemática.

 Na verdade, não é certo que o Reino Unido constitui um bom exemplo do tipo de Estado-nação que muitos eurofóbicos dizem ser a forma mais desejável de organização política. Assemelha-se mais à “monarquia composta” que o historiador John Elliott identificou como a forma predominante de governo, no século XVI, quando entidades separadas, como Aragão e Castela, tiveram de se juntar.

Já em 2014, o Partido Nacional Escocês quase ganhou um referendo popular sobre a independência. O Brexit poderia reforçar essa causa, estimulando potencialmente um sentimento similar no País de Gales e Irlanda do Norte. Mesmo no norte de Inglaterra, muitos eleitores seriam atraídos pela maior ênfase da Escócia no bem-estar social.

 Estas divisões não coincidem com as fronteiras tradicionais. Consideremos a divisão entre a região de Londres, que se assemelha cada vez mais a uma super-metrópole global, e o resto do país. À medida que cada vez mais imigrantes chegam ao Reino Unido, a brecha torna-se cada vez mais evidente. Enquanto uma cidade global como Londres precisa de ser aberta para o mundo – e, assim, atrair os melhores talentos, turistas, trabalhadores de serviços, e talvez, inadvertidamente, criminosos ou mesmo terroristas – a maior parte do resto do país prefere ser fechada.

 O que os britânicos partilham, neste momento, é sobretudo uma crescente desilusão com o que a UE pode oferecer, em termos económicos e não só. Mas isso não equivale a nada próximo de uma identidade comum. Na verdade, como a UE, o Reino Unido sofre com a falta de uma identidade unificadora ou uma história.

 Naturalmente, isso não significa que não seja reivindicada nenhuma identidade. O ex-primeiro-ministro John Major chamou ao Reino Unido “o país das longas sombras sobre os campos de críquete, cerveja quente, subúrbios verdes invencíveis, amantes de cães e, como disse George Orwell, ‘solteironas de bicicleta a caminho da sagrada comunhão através da névoa da manhã’…” Mas o que ele estava a descrever, na verdade, era Inglaterra. Os elementos-chave da identidade britânica moderna parecem pertencer todos a Inglaterra, em vez de à entidade composta.

 Da mesma forma, a igreja estabelecida ou do estado é a Igreja de Inglaterra, criada há quase 500 anos, quando o rei Henrique VIII decidiu que o papa católico não devia julgar o seu casamento. Uma instituição chamada English Heritage é a curadora do passado, desde os monumentos pré-históricos de Stonehenge às casas de campo antigas que são celebradas em ficções televisivas. O dinheiro é controlado pelo Banco de Inglaterra; com a Escócia e a Irlanda do Norte a emitirem as suas próprias notas, que os comerciantes ingleses muitas vezes não aceitam.

 Quando Henrique VIII adoptou o Estatuto de Retenção de Apelações a Roma, com a sua declaração de que “este reino da Inglaterra é um império” – a primeira afirmação clara da ideia de soberania nacional – seguiu-se uma campanha brutal para acabar com a antiga religião. Mas o esforço para construir uma nova identidade composta ficou claramente aquém. Isso deixa o Reino Unido vulnerável ??ao colapso – um resultado que o Brexit tornaria ainda mais provável.

Harold James no Negocios

Ai aguentam, aguentam!

Há 20 anos o país assistiu ao início de uma das mais prolongadas lutas laborais de que há memória, principalmente na sua Região Norte. Os trabalhadores do setor têxtil (como de outros setores industriais) tinham um horário laboral de 44 horas semanais – 8 horas diárias de segunda a sexta-feira mais 4 horas de trabalho ao sábado. Em julho de 1996 é aprovada uma legislação que consagra o horário de 40 horas semanais, o que implicava, em termos práticos, que os trabalhadores deixavam de trabalhar aos sábados. Naturalmente que as entidades patronais não ficaram satisfeitas com esta consagração da “calaceirice” dos trabalhadores. Vai daí, introduziram uma vigarice na aplicação da lei: as pausas de meia hora que os trabalhadores gozavam ao fim de 5 horas consecutivas de trabalho (pausas gozadas no interior da fábrica, muitas vezes no próprio posto de trabalho e que correspondiam a um direito que vinha de antes do 25 de Abril – e que mais não visam do que permitir o retempero de forças para aumentar a produtividade para a jornada seguinte) não contavam para efeito de horário de trabalho! O que significava que, apesar da consagração legal das 40 horas de trabalho semanais, os trabalhadores teriam que trabalhar 42,5 horas, sendo as duas horas e meia adicionais trabalhadas ao sábado. Iniciou-se aí uma luta, com greves, marchas, vigílias e concentrações que contou com a solidariedade ativa de muita gente que não era afetada diretamente pela situação e que durou 65 semanas!

Período após o qual se chegou a um acordo com a consagração de que essas pausas de meia hora correspondiam a horário de trabalho efetivo, pelo que foram aplicadas as 40 horas e o fim do trabalho ao sábado.

Se recordo esta luta é porque a mesma assume um particular relevo quando estão em causa as 35 horas/semana na Administração Pública. E a primeira questão é que falamos da reposição das 35 horas e não de um novo direito. Direito que o Governo PSD/CDS tinha retirado, fazendo com que os trabalhadores da Administração Pública (e também da Administração Local) vissem reduzido os seus vencimentos, para além dos outros cortes, em 14%!

Os que procuram escamotear esta situação dizem, agora, que a situação do país não permite estes “luxos” de jornadas de 35 horas… Mas são os mesmos que defendem que o país se pode dar ao luxo de pagar muitos milhares de milhões de euros com dinheiros públicos para “salvar” bancos que, depois, entregámos por tuta e meia a grupos estrangeiros e nacionais (não é, Sr. Miguel Relvas?).

Outros dizem que não é “justo” que os funcionários públicos tenham um horário de 35 horas enquanto os trabalhadores do setor privado têm um horário de 40 horas. Aqui estou de acordo, mas o meu ponto de vista é inverso: tal como há 20 anos foi consagrado o direito de os trabalhadores do privado passarem de 44 para 40 horas, talvez esteja na altura de fazer uma nova redução, equiparando-os aos horários da Administração Pública.

Naturalmente, tal como aconteceu na altura, as entidades patronais dirão que não aguentam. Eu direi como o outro: Ai aguentam, aguentam! Porque a competitividade tem que se basear na produtividade e não na mão de obra barata – objetivo maior do prolongamento da jornada de trabalho.

Rui Sá no JN

Um orçamento realmente anti-austeridade

Escasseia a paciência para o falso debate sobre o orçamento que a direita tem conseguido manter na agenda mediática usando todas as armas de arremesso possíveis e imaginárias e ao qual o Governo, o PS e os outros partidos da esquerda têm respondido de uma forma demasiado defensiva. Porquê “falso debate”? Porque em caso algum a direita avançou uma contestação séria dos objectivos ou das políticas consubstanciadas no orçamento – o que tinha o dever de fazer – e apenas tem tentado colar-lhe rótulos que visam denegrir as novas políticas sem as discutir e, principalmente, sem as comparar com as políticas que a própria direita pôs em prática no governo anterior ou com aquelas que preconiza nas actuais circunstâncias.

Primeiro foi o “debate” sobre os pressupostos do orçamento, que eram irrealistas e inatingíveis – como se um orçamento não fosse um exercício de previsões (arriscadas por definição, principalmente em tempos de agitação das finanças e das economias internacionais), como se um orçamento não fosse uma definição de objectivos políticos (sempre discutíveis, sempre ideológicos e, naturalmente, distintos e opostos aos dos adversários) e como se os pressupostos dos orçamentos do governo PSD-CDS não tivessem sido, mais do que discutíveis, comprovadamente falsos.

Depois foi o “debate” sobre aquilo que seria afinal uma continuação da “austeridade”, devido à manutenção de uma carga fiscal elevada, que a maior parte dos comentadores e jornalistas adoptou como argumento e causa própria sem pruridos de maior.

Antes de mais, pensemos um pouco nas palavras. “Austeridade” foi durante muitos anos um substantivo neutro ou mesmo com tonalidades positivas. Ser austero não era ser alegre e imaginativo mas era ser frugal e prudente, severo e rigoroso, contido e disciplinado, honesto e fiável – tudo qualidades que, se é verdade que podem ser exercidas com excesso e fanatismo, todos concordamos que devem balizar de uma forma geral a acção governativa do Estado. Uma política de austeridade pode assim não ser a mais adequada num determinado momento mas não é (não era) intrinsecamente condenável.

O que acontece é que a direita neoliberal internacional – como está hoje bem estabelecido por múltiplos estudos feitos por inúmeros especialistas e organizações – decidiu, inteligentemente, chamar “austeridade” a uma política que nada tinha de austera e que constou, simplesmente, de uma brutal transferência de rendimentos do factor trabalho para o capital; de um empobrecimento geral dos cidadãos; de um aumento do desemprego de forma a reduzir a capacidade negocial dos trabalhadores e a facilitar a descida de salários; de uma redução brusca da quantidade e da qualidade dos serviços públicos de forma a fragilizar a situação dos mais pobres e a aumentar as receitas dos serviços prestados pelas empresas privadas em particular nas áreas da saúde e da educação; de uma redução dos direitos sociais, económicos e culturais dos cidadãos; de uma redução dos direitos laborais e sindicais de forma a reduzir a capacidade reivindicativa dos trabalhadores; da imposição de uma situação de excepção do ponto de vista legal que fez regredir as conquistas do último século em termos de direitos humanos; de uma redução das prestações sociais de forma a excluir da forma mais radical possível os mais frágeis do exercício da cidadania; de pilhagem do património público, privatizando todas as actividades económicas rentáveis ainda na esfera pública, de forma a reduzir o poder político do Estado e a submetê-lo ao poder económico das empresas privadas; etc.

Porque é que esta política nada tinha de austera? Porque a política chamada de “austeridade”, a par da muito real “austeridade para os pobres”, estabeleceu uma situação de facto de regabofe para os ricos e poderosos, que aumentaram as suas riquezas e poder, que se apropriaram ilicitamente de bens públicos, que viram as suas rendas e privilégios reforçados.

O programa radical que a extrema-direita económica representada em Portugal pelo PSD e pelo CDS (“extrema-direita” porque não há nada mais à direita no espectro da política económica) levou a cabo no nosso país foi assim uma revolução de direita, feita sem mandato popular, com falsos pretextos e com resultados catastróficos em termos sociais e económicos.

O orçamento do actual governo, por isso, não tem nada de austeridade e é, em quase toda a linha, um orçamento anti-austeridade – no sentido abastardado que a direita impôs à palavra – ainda que frugal e prudente.

É um orçamento com uma elevada carga fiscal. Mas poderia ter, sem problema e com justiça, uma carga fiscal ainda mais elevada. É que o problema não é quanto se paga de impostos, mas sobre o quê e sobre quem incidem os impostos. Todos sabemos (é a Autoridade Tributária quem o diz) que os mais ricos pagam menos imposto do que deviam. Os impostos do actual orçamento são justos porque aliviam os menos ricos e porque permitem que a economia respire. E é essa a questão. Não se aqui ou ali há mais ou menos duas décimas de imposto.

Jose Vitor Malheiros no Publico

Cinco “filmes” para perceber a “guerra” Rui Moreira/TAP

O cenário é um aeroporto. O protagonista é Rui Moreira e no papel de “vilões” aparecem os novos donos da TAP. Na trama entram também galegos. Quem acabará a voar baixinho? É favor apertar os cintos.

Turbulência

Foi em Braga, corria abril do ano passado. À margem de uma visita ao Instituto Ibérico de Nanotecnologia, na companhia do autarca de Braga, Rui Moreira afirmou: “A TAP não é estrutural para o Aeroporto Francisco Sá Carneiro nem para região, nem a região parece ser estrutural para a TAP. Não dramatizo essa situação, é um problema do Governo, não é um problema nosso”. Quase um ano depois e uma mudança de cor política no Executivo nacional, parece que não é bem assim. O presidente da Câmara do Porto acusa a companhia aérea, agora de gestão privada, de querer suprimir ligações aéreas da Invicta para Barcelona, Roma, Milão e Bruxelas, além do voo noturno para Londres (Gatwick). Como se isso não bastasse, a TAP voará, a partir de 1 de julho, para Vigo (Galiza). A opção é, no entender do autarca, “uma brincadeira de mau gosto, vai drenar tráfego da Galiza e retirar passageiros”. Se as pressões institucionais e as denúncias públicas falharem, Moreira ameaça apelar a um boicote nortenho à TAP. «Manif» à vista?

Fortaleza voadora

Na sequência das negociações com o consórcio Gateway, que tinha 61 por cento da TAP e agora fica com 45, o Governo assumirá metade das ações da companhia, sobrando os outros cinco por cento para os trabalhadores. Rui Moreira deseja que o primeiro-ministro, de quem é amigo, faça valer o poderio que metade do capital da companhia aérea lhe dará e faça da TAP um ativo estratégico. “Se vamos pagar a TAP com os nossos impostos, então deve prestar serviço público”. De momento, António Costa não prometeu coisa alguma. Disse apenas que o acordo para a reversão da privatização da TAP, negociada por PSD/CDS, dá ao Governo margem para intervir no assunto. Amigos, amigos…

Pânico no Ar

Há pouco menos de dois anos, Rui Moreira ainda era, para a generalidade da Imprensa galega, o atrevido e carismático autarca que tinha abalado o stablishment político português à boleia de uma furgoneta hippie que percorrera a cidade em campanha eleitoral e o levaria ao lugar onde se encontra hoje. Agora, o caso mudou de figura: com a inauguração da ligação aérea Vigo-Lisboa prevista para breve, a TAP conquistou os afetos do lado de lá da fronteira e a ira do autarca do Porto. Abel Caballero, autarca socialista daquela cidade, considerou a atitude de Moreira “intolerável” e pediu uma investigação da União Europeia às declarações do seu congénere portuense, considerando-as “de uma gravidade extrema” por significarem uma forma de “condicionar o mercado livre”, acusou. “Até pode chamar a PIDE”, respondeu-lhe o independente que lidera a Câmara do Porto. A relação entre ambos nem sempre foi assim. Em julho de 2014, os dois acordaram, por escrito, estreitar os laços entre as duas cidades através da promoção turística. Mas devia ser por terra, presume-se.

Assalto ao Aeroporto

Na Galiza, a estratégia comercial agressiva do Aeroporto Francisco Sá Carneiro não caiu bem. Aproveitando a falta de coordenação entre os aeroportos galegos e as divergências políticas entre eleitos de diferentes cores do lado espanhol, o Porto captou mais de 800 mil galegos para o seu aeroporto, oferecendo uma paleta superior a 60 destinos estrangeiros. O jornal Faro de Vigo denunciou há semanas a publicidade enganosa do “Sá Carneiro” na cidade. Os cartazes anunciam que, pela módica quantia de três euros, o turista pode fazer a ligação de uma hora entre Vigo e o aeroporto do Porto por autocarro. Só de Fórmula 1, ironizou o jornal. A polémica acentuou-se desde que Rui Moreira afirmou, em maio do ano passado, que o “Sá Carneiro” era o maior aeroporto…”da Galiza”. Fê-lo na Corunha, de braço dado com o autarca local do PP encantado por provocar mais umas ciumeiras ao congénere socialista de Vigo.

Ases pelos Ares

A criticada “presunção” de Moreira tem, no entanto, um fundo de verdade: o aeroporto do Porto superou no ano passado a barreira dos 8 milhões de passageiros, ou seja, mais do dobro dos três aeroportos galegos juntos. Acontece, porém, que o terminal de Vigo começa a ganhar destinos e passageiros. E para piorar, até o diretor geral da TAP em Espanha veio a público socorrer os galegos: “Transportamos milhares de viguenses para o Porto. O natural era existir um voo desde Vigo”, explicou ao Faro de Vigo numa entrevista em que anuncia a sua disponibilidade para dar asas à Galiza, em detrimento do Porto: “Trabalharei para que a rota de Lisboa seja um êxito total”, afirmou. Por estes dias, a mensagem dos comentadores galegos parece cada vez mais azeda para Rui Moreira: “É o mercado, senhor regedor do Porto”, escreveu Carlos Punzón em La Voz de Galicia: “O mesmo mercado manipulado que deixou Vigo sem voos por causa das ajudas a outros aeroportos”.

Miguel Carvalho na Visao

Escravatura por dívida

A história conheceu e conhece muitas circunstâncias em que, por não pagamento de uma dívida, uma pessoa perdia a sua liberdade e ia preso ou, pior ainda, era reduzido a um estatuto de escravatura, temporária ou definitiva. Estas práticas existiam na Grécia antiga, com a sempre especial excepção de Atenas, onde Sólon as proibiu. E mais ou menos espalhadas continuaram na Índia praticamente até aos nossos dias, tendo conhecido formas variadas de trabalho forçado durante a expansão colonial europeia. Hoje, uma das formas modernas de escravatura por dívida é praticada pelos grupos mafiosos que exportam mão-de-obra e emigrantes para a Europa e América e mulheres para redes de prostituição, retirando-lhes os documentos, em nome da dívida que contraíram ou as suas famílias para “pagar” a viagem e a entrada ilegal nos países mais ricos. Estamos a falar, como é óbvio, de actividades criminosas, visto que a escravatura é um crime.

Ah!, afinal não é bem assim. Se se tratar de um Estado soberano que tenha uma grande dívida, por exemplo, Portugal, este pode ser obrigado, sob pena de morrer à fome ou de uma qualquer forma de intervenção estrangeira mais ou menos agressiva que o transforme num pária, como aconteceu na Grécia, a aceitar uma qualquer forma de escravatura por dívida. Escravatura significa aqui deixar de ser um país democrático, porque os seus habitantes deixam de poder votar como entenderem, ou então votam sem consequência, porque as políticas que lhe são exigidas são sempre as mesmas — trabalhar para pagar aos credores, sob a forma que os credores consideram ser mais eficaz em função dos seus interesses. Escravatura significa aqui que um país, Portugal, por exemplo, deixa de ser propriedade dos portugueses para o ser dos credores, que definem os orçamentos, as políticas, até ao mais pequeno pormenor, deixando apenas a intendência muito menor aos responsáveis locais. Escravatura significa que esses países e povos que assinaram em desespero de causa um contrato, seja um memorando, seja um tratado orçamental, um contrato por dívida, ou outro, um contrato que obriga todas as políticas a servir a dívida e o seu pagamento, não podem sequer escolher qualquer outro caminho para pagar a dívida que não seja o de aceitarem a escravatura, senão partem-lhes as pernas. Os credores controlam a “reputação” e a “confiança” de um país, conforme ele cumpre os preceitos do bom escravo, e, caso haja dúvidas sobre a sua obediência, tiram-lhe de imediato o ar.

Lembro-me disto quando ouço justificar tudo o que acontece com a “bancarrota Sócrates”. E tudo o que nos acontece não é coisa de somenos, é aquilo que define a liberdade de um país e de um povo, é a perda de democracia, a perda de autonomia dos portugueses para se governarem, a redução das suas instituições como o Parlamento à impotência, é o taxation without representation, é a humilhação pública de governos através de fugas de informações de funcionários de Bruxelas, é o desprezo e o deitar gasolina para a fogueira de pessoas como Schäuble e, pior que tudo, é ver portugueses muito contentes com a submissão do seu país. Percebe-se porquê: as políticas que nos são impostas são as deles, identificam-se com elas e os interesses que representam (e representam muitos interesses) sentem-se confortáveis com a escravatura que nos é imposta. Podem não governar já hoje Portugal, mas governam-no a partir de Bruxelas, das agências de rating e do senhor Schäuble.

A “bancarrota Sócrates” foi um desastre para o interesse nacional, Sócrates tem uma imensa responsabilidade, mas não está solitário nessa responsabilidade. Embora ainda haja muitas obscuridades no que aconteceu, a responsabilidade deve ser partilhada com o PSD e o CDS, e em menor grau como BE e o PCP. Parte dessa responsabilidade é também da crise financeira internacional, da maneira como a Alemanha suscitou, com o caso grego, a crise artificial das dívidas soberanas, e do comportamento errático da Comissão sob tutela alemã, que primeiro quis combater a crise deitando dinheiro em cima da economia e depois travou, virando 180º a política económica. Bem vistas as coisas, sem que isso signifique uma caução às políticas despesistas de Sócrates, podia não ter havido a “bancarrota Sócrates”.

Por isso, a situação actual não é filha de um único evento, mas de dois: a “bancarrota Sócrates” e a governação desastrosa do PSD-CDS dos últimos quatro anos. Como já escrevi várias vezes, a crise de 2008-2011, abriu caminho para uma outra crise, que tem sido responsável pela estagnação da Europa em contraste com os EUA. E o que se seguiu, para países como Portugal, foi menos dramático do que a iminência de não ter dinheiro nos cofres, mas foi, num certo sentido, pior: foi a redução do país a uma política que, acentuando as desigualdades e a pobreza, destruindo os escassos recursos que existiam, erodindo a frágil classe média e obrigando à emigração dos mais qualificados, impedindo qualquer política de desenvolvimento, tornou o país num medíocre executor de políticas com um único objectivo: pagar a dívida que é hoje, no meio da crise bancária e financeira, uma linha de vida para os credores. Pequenos que somos, não contando muito para os balanços, contamos para o exemplo. Aí contamos muito mais do que devemos, daí a enorme pressão política sobre o Governo Costa, que tem garantida a enorme hostilidade dos mesmos que tornaram estas políticas a variante nacional da TINA. O problema não é de “desconfiança”, é de hostilidade — ele não é dos nossos, não é o que foi Passos Coelho, logo, vamos ensiná-lo como fizemos aos gregos. Com os resultados brilhantes que se vêem na Grécia.
O contentamento mal escondido da direita radical com as dificuldades do Governo Costa coloca-a com entusiasmo ao lado da vozearia que vem de Bruxelas e Berlim, alguma de uma arrogância que devia ofender já não digo um patriota, mas um português que gosta do seu país. Responsáveis do Eurogrupo, altos funcionários sob a capa das fugas anónimas, antigos e actuais ministros das Finanças europeus, holandeses, bálticos, alemães, dão entrevistas pronunciando-se sobre um governo legítimo da União Europeia com uma desenvoltura que nunca tiveram com os responsáveis políticos húngaros e polacos cujas malfeitorias em direitos e liberdades são-lhes bastante menos importantes do que uma décima no défice português. E quando alguém acha que todas estas vozes, falando também para as agências de rating e para os “mercados”, são demais, eles encolhem os ombros e dizem que um país em bancarrota é escravo da dívida.
Não, não é só isso — é que eles gostam do que ouvem, pena é que Schäuble não fale mais vezes para varrer este Governo do Syriza português, mais o PCP e o BE. Pensam acaso que eles estão muito preocupados com a dívida? Enganam–se. Tanto mais que a aumentaram consideravelmente quando estiveram no poder e que em segredo sussurram que “no fim de tudo tem de haver uma reestruturação da dívida”. Não é a dívida que os preocupa, é o poder político deles e dos seus e a prossecução de uma política que faça recair sobre uma parte dos portugueses, aqueles a que se tornou maldito restituir salários e pensões, o ónus do défice e da dívida e, acima de tudo, que o alvo desses custos não sejam outros. A escravatura do país é para eles bem-vinda, ajuda-os a manter o poder, “porque não há alternativa”. Conheço vários exemplos na história destes “não há alternativa” e nenhum acabou bem.
Pacheco Pereira no Publico

Os fãs Portugueses de Schäuble

O homem do dedo em riste voltou a atacar.

“Estamos atentos aos mercados financeiros e acho que Portugal não pode continuar a perturbar os mercados”, disse ontem Wolfgang Schäuble. Se o problema era o nervosismo dos mercados, o ministro alemão deve ter acalmado, deve. Ontem, o italiano La Repubblica: “Profundo Vermelho na Bolsa”; o espanhol El Mundo: “Os Mercados Duvidam da Solvência do Deutsche Bank”; o francês Le Monde: “Ações da Societé Général Mergulham”… Meu Deus, Costa, põe mão no Centeno, que a Europa não aguenta! O papel de Portugal nas finanças mundiais é tremendo. Portugal não é a minhoquice de Espanha (onde as perdas do IBEX, este ano, são só cem mil milhões de euros…), não, nós somos capazes de ondas gravitacionais negativas como só Schäuble e Einstein são capazes de prever, a cem anos ou já para a próxima crise. A Espanha só merece um raspanete: “O Eurogrupo descarta dar a Espanha a flexibilidade no défice que pede Rajoy” (ontem, El País). Ela é minorca economicamente e tem solidez política (tirando, claro, não ter governo e, a tê-lo, será com o Podemos, solução que pode estilhaçar o país, mas só na Catalunha…). Essa não assusta Schäuble. O problema, mesmo, é Portugal. Não chega o Centeno não pedir flexibilidade, prometer cumprir o défice e dizer ao Eurogrupo que tem medidas para o caso de “vir a ser necessário”… Tudo isto é estranho. Mas Schäuble ter tantos fãs em Portugal ainda é mais.

Ferreira Fernandes no DN