O BE, a identidade de género e o ridiculo

O BE lembrou-se agora que o Cartão de Cidadão é sexista ja que “não respeita a identidade de género de mais de metade da população portuguesa”.

E o disparate em forma de projecto de resolução continua: “como documento principal de identificação, um documento cujo nome não cumpre as orientações de não discriminação, de promoção da igualdade entre homens e mulheres e de utilização de uma linguagem inclusiva”.

A promoção da igualdade entre homens e mulheres é um assunto demasiado serio para ser ridicularizado desta forma.

A este proposito, nao resisto a transcrever aqui um post que encontrei no FB:

Fui à Loja dos Seres Humanos Que Convivem em Sociedade, antiga Loja do Cidadão, para perguntar como posso tirar o novo Cartão da Pessoa Humana. Disseram-me que poderia ser num balcão ou na Internet no novo Portal Da Cidadania Unissexo. Perguntei também onde poderia obter informações para criar uma empresa e desde logo fui encaminhado para o Balcão dos Seres Adeptos do Empreendedorismo, antigo Balcão do Empreendedor. Agradeci. Ao chegar a casa deparei-me com um incêndio no meu prédio e desde logo tentei ligar para o número dos Bombeiros mas disseram-me que a linha tinha sido desactivada e que agora teria de ligar para o Departamento de Pessoas de Ambos os Dois Sexos que Apagam Fogos. Foi o que fiz. Vieram rápido e apagaram o fogo. Havia um ferido que não pode ser assistido porque chamaram os Paramédicos e ninguém atendeu. Os próprios bombeiros, aliás, Pessoas De Ambos os Dois Sexos que Apagam Fogos, não sabiam que agora teriam de chamar as Pessoas Especializadas em Paramedicina. Por sorte, ia a passar um senhor que já fez parte dos Licenciados em Medicina Sem Fronteiras e conseguiu ajudar. A vítima disse que ia processar o Estado e ligou logo para um escritório de Humanos que Exercem Advocacia. O advogado que atendeu disse para ele ligar para o Tribunal dos Direitos do Homem. Do Homem?! Enfim, vai haver sempre pessoas que vão continuar a discriminar as mulheres.

Pois…

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A estupidez não é de esquerda nem de direita

Socorro-me do Sérgio Godinho para constatar que, de facto, há dias de manhã em que um homem à tarde não pode sair à noite nem voltar de madrugada. Ontem, para o Bloco de Esquerda, foi um desses dias. O cartaz – parece que agora não passará de um post na internet – que pretende celebrar o fim da descriminação com a promulgação da lei da adoção é, não há outro modo de o classificar, uma estupidez a vários níveis. Desde logo porque reacende desnecessariamente uma discussão que estava arrumada, e bem arrumada, como ganho de civilização. O fim das barreiras à adoção com base na sexualidade dos adotantes é uma vitória e um marco na nossa evolução que deve ser festejado. O problema é quando se transforma a celebração legítima em ato gratuito de provocação e de pirraça mesquinha. E foi isso que fez o Bloco, entregou de bandeja aos talibãs da fé – sim, existem em todos os credos e religiões e, à exceção dos que se servem da violência, não há uns que sejam melhores do que os outros – o pretexto para se vitimizarem e se queixarem da intolerância religiosa de alguns. O que esta campanha infeliz, para dizer o mínimo, conseguiu foi reduzir um triunfo histórico a uma polémica de mata-frades. Ao fazê-lo desta maneira imbecil o Bloco de Esquerda não protegeu o essencial, o respeito devido a uma lei que tanto custou a aprovar e a conquistar. Mas revelou também uma terrível dose de ignorância. Daquilo que sabemos – e não falo de dogmas -, Jesus Cristo era filho de Maria – curiosamente o BE deixou que lhe escapasse o pé para o machismo na narrativa deste cartaz – e cresceu com a mãe e um pai adotivo, José o carpinteiro de Belém. Ora, bem vistas as coisas, a referência bíblica em jeito de piadola – e não, não defendo o respeitinho como modo de agir ou de pensar – nem sequer serve a causa. No limite, o que se terá passado há mais de dois mil anos foi o primeiro registo de uma coadoção, porém heterossexual, da história da humanidade. Aqui chegados, e Deus me livre de qualquer espécie de moralismo, só podemos concluir que pior do que não saber perder é não saber ganhar. Ao fazer uma espécie de manguito aos que se bateram contra esta lei, justa e necessária, o Bloco de Esquerda deu argumentos ao adversário e perdeu uma belíssima oportunidade para estar calado.

Nuno Saraiva no DN

A esquerda que acorde e se entenda de vez

Excelente artigo de opinião de Pacheco Pereira no Publico

As características atípicas das eleições presidenciais, em que não houve ganho de causa para a direita radical dos saudosos do PAF, tem ajudado a esconder uma crise bastante profunda da esquerda portuguesa, que aliás também se manifestou nessas eleições. Se a isso somarmos a existência de um governo de centro-esquerda, apoiado pela esquerda, numa situação sem paralelo desde o 25 de Abril, também parece que a esquerda soma e segue, enquanto, na verdade, se encontra perigosamente estagnada. Será apenas uma questão de tempo até que esta crise da esquerda possa vir a favorecer o retorno ao poder de uma direita que será então mais agressiva e revanchista do que já é hoje. E hoje já é muito.

Há dois aspectos positivos na vida política dos últimos meses, que deveriam servir de élan para as forças que querem outra política e outra composição do espectro político. Essas forças vãs do centro e centro-esquerda à esquerda, e estes aspectos tem sido desbaratados e pouco usados: um, é o derrube do governo PAF; e outro a política a que pejorativamente se chama de “reversões e reposições”, que representa o melhor que este governo tem feito.

São em ambos os casos, medidas políticas muito fortes, a primeira traumática e genética, a segunda estrutural, mas tem tido um papel menor na argumentação política, como se fossem triviais ou meramente defensivas. Quer uma quer outra seriam boas oportunidades para dar um impulso e uma assertividade à actual maioria parlamentar que suporta o governo e, quer uma quer outra, ameaçam perder-se por uma mistura de passividade, moleza, descrença, má-fé, egoísmo de grupo e partido. A direita, pelo contrário, mesmo estando ainda muito assarapantada, não perdeu a sua agressividade. Conduziu uma campanha em primeiro lugar assente na ilegitimidade da solução governativa e, depois de esgotado este tema, conduziu outra campanha destinada a desqualificar a acção governativa nas “reversões” com argumentos tecnocráticos, aproveitando-se da interiorização que muitos jornalistas e comentadores fizeram do argumentário da direita nos últimos quatro anos. As medidas do Governo foram e são interpretadas em função do cânone da direita, e a esquerda recita-as, em particular o BE e o PS, como se fossem “positivas”, mas sem as inserir num debate político que precisava de ser muito mais dinâmico. Mais do que “promessas” ou meras reivindicações dos acordos PS-BE-PCP, as “reversões” são o sinal de que a governação passou, ou deveria passar, a servir o “bem comum” a maioria dos portugueses. Deveriam ser uma honra ao serviço da dignidade das pessoas e não uma mera correcção de rumo.

Esta campanha da direita foi continuada na questão do orçamento, em que o PS se rendeu com o argumento que as suas dificuldades europeias se deviam a “questões técnicas”, e o PCP e o BE se limitaram a fazer exigências públicas de “cumprimento dos acordos”, como se não fossem parte de um processo que exigia muito mais de entendimento e de solidariedade com um governo que também é “deles”. Só numa fase mais tardia, já o orçamento estava “tecnicamente” desqualificado junto da opinião pública, pela combinação de ataques e pressões da direita, algumas duplicadas por pressões dirigidas à Comissão Europeia via PPE para chumbar o orçamento português, com fugas “oportunas” de funcionários europeus a partir de Bruxelas, é que começou a haver alguma reacção.

Essa reacção veio através de declarações de alguns dirigentes do PS, do PCP e do BE, denunciando o que PSD e PP estavam a fazer, através de Passos, Portas e Rangel, e como a Comissão Europeia, que, enquanto cedia a Londres aspectos fundamentais do quadro social europeu, mostrava uma inflexibilidade agressiva com o orçamento português por razões ideológicas e de antipatia política. Não sei se o orçamento está ou não mal feito, – no que, aliás, se estiver mal feito será mais uma continuidade do que uma diferença com os anteriores, – só sei que ele estava a ser atacado não por “tecnicalidades”, mas por questões políticas que são hoje, no contexto europeu, “subversivas”. Ora isto devia merecer do PS, do BE e do PCP, pesem as suas diferenças, uma fala mais alta e dura.

Se o PS, BE e PCP acham que está tudo bem, enganam-se redondamente. Se não têm noção de risco e urgência, não percebem o que se passa, nem sequer o que estão a fazer. Quando há muito escrevi que o caminho em que se tinha entrado com o derrube do governo PAF implicava uma alta consciência dos riscos e perigos, tinha a percepção de que não se estava “a jogar a feijões”, mas a fazer uma parada muito alta. Esperava e espero que quem “joga” essa parada, não se distraia com aspectos menores e se mantenha firme e sem tibiezas no essencial. Deste “jogo” não há saída limpa, resta saber quem é que sai sujo.

Ora, o BE está demasiado contente consigo próprio para perceber que tem que moderar esse contentamento a favor de um comportamento colectivo com o PS e o PCP, que evite a fácil reivindicação de ganhos, que deixarão de ser ganhos se se perder o instrumento que os permitiu. E esse instrumento, por muito que isso custe a admitir ao BE, não foi a “força negocial” do Bloco (que é um fantasma propagandístico da direita), mas a disponibilidade do PS e, numa parte também decisiva, do PCP para se entenderem contra a direita. Sem um governo como o do PS, ou à volta do PS, mesmo que frágil, ou até porque é frágil, a alternativa são novas eleições num contexto particularmente desfavorável para a esquerda. O BE até pode subir um ou dois pontos, mas se a direita tiver uma maioria absoluta, bem pode ir para casa aquecer-se com esses dois pontos na lareira, enquanto cá fora desaba o mundo dos seus “ganhos”.

A crise do PCP também não é boa conselheira. Contrariamente à alegria do BE, PCP está demasiado triste consigo próprio para perceber como tem muito a perder se ajudar a enfraquecer o PS, num afã de competir com a retórica do BE. Enquanto o BE pode ter ganhos propagandísticos o PCP teve ganhos “orgânicos” com a actual solução governativa, principalmente ao travar a ofensiva anti-sindical que era evidente na fase final do governo PAF. Pires de Lima e Portas, mas também Passos, Maria Luís e o porta-voz do governo estavam a usar sistematicamente como legitimação para a política de privatizações, as greves e reivindicações, e os apelos à limitação do direito à greve e a acção sindical eram comuns na maioria. A mesma maioria que hoje se lamenta da “desvalorização” da concertação social e que actuou nos últimos quatro anos com uma política social de facto consumado.

Se esse ganho “orgânico” do PCP não o tem ajudado eleitoralmente, o PCP deverá procurar noutro lado, na sua política, na sua linguagem, nos seus quadros, as razões porque isso aconteceu. Mas devia perceber com uma clareza cristalina que a queda do governo do PS, ou a contínua criação de dificuldades para mostrar “identidade”, não são bons para todos os partidos da actual maioria, a começar pelo PCP.

O PS é ao mesmo tempo o elo forte e fraco disto tudo. Aconteça o que acontecer será sempre ao PS que irão ter os bons ou maus resultados do que se está a passar. O PS dá a esta solução política duas coisas fundamentais que só dele poderiam vir: é o segundo partido mais votado, com mais votos do que o BE e o PCP juntos, o que significa que sem ele não há qualquer solução de governo; e a disponibilidade, – e isso é obra de António Costa, – para acabar com o direito natural a governar do chamado “arco da governação”. Isso, por si só, foi uma verdadeira revolução do sistema político, mas só ganhará consistência se o PS puder governar com tempo, competência e sentido social e se, nas próximas eleições, a esquerda estiver entendida formal ou informalmente. Ou seja, o caminho que se abriu em Outubro de 2015, ou dura muito pouco e a hegemonia da direita será longa, ou é mais duradouro e isso pode permitir um reequilíbrio a prazo do sistema político e, então, “soltar” o centro”.

A questão da Europa vai ser a mais decisiva e a mais difícil de resolver, mas isso fica para outra altura.

“Afastamento do PSD do centro facilitou” acordo à esquerda

Excelente entrevista de Pedro Nuno Santos ao Publico:

A mensagem é clara para quem contesta o acordo do PS com o BE e o PCP. Mais antinatural que assinar um acordo de Governo com o BE ou PCP seria “viabilizar um Governo de direita, talvez o mais radical que o país já conheceu”. E argumenta que foi a deriva do PSD que fez aproximar o PS da esquerda.

Nós pretendemos um Estado social universal, público e tendencialmente gratuito. E isso não se faz com a direita

Seria demasiado gravoso para o país aceitar que um Presidente da República pudesse preferir um Governo de gestão ou de iniciativa presidencial a um Governo com apoio maioritário, aliás como esse Presidente sempre exigiu

Isso não tem nenhum sentido. A direita conseguiu, infelizmente, convencer uma parte considerável do país de que nós não tínhamos direito a mais. Só que é possível. Aquilo que mostrará o programa do Governo liderado pelo PS é que não só é possível recuperar rendimentos e proteger os serviços públicos, como é possível fazê-lo dentro das restrições orçamentais que nos permitem cumprir uma trajectória que não ponha em causa os nossos compromissos internacionais. Isso será confirmado no momento em que for apresentado o programa que terá também as contas feitas, como nós apresentámos durante a campanha. E o programa de Governo também terá as contas feitas. Poderá dar a segurança que as pessoas precisam relativamente ao cumprimento das metas.

Publico

Fonte: “Afastamento do PSD do centro facilitou” acordo à esquerda – PÚBLICO

Que o PCP não contrarie a sua história

Daniel Oliveira no Expresso

Os sinais dados pelo PCP têm sido contraditórios. Não se trata do PCP, no processo negocial, expor as suas divergências e pedir cedências. São sinais de inconsequência e inconsistência na forma como se está neste processo. E isso é o pior de tudo. Transmite aos portugueses insegurança e fragiliza muito esta solução. Dá desculpas a Cavaco Silva para manter Passos em gestão. Jerónimo de Sousa ouviu nas ruas o mesmo que Catarina Martins e António Costa. Pensar que, depois do brutal embate político a que assistimos nas últimas semanas, o PCP não seria fortemente penalizado pelos seus próprios eleitores se de alguma forma fosse responsável pela frustração das esperanças criadas e pela continuação da direita no governo é passar um atestado de menoridade ao eleitorado comunista. O comportamento do Bloco de Esquerda neste processo, negando a imagem de ser, ao contrário do PCP, pouco confiável, criou um novo problema aos comunistas: o do BE se tornar mais atrativo para quem procure sinais sólidos de maturidade política. Seria demasiado absurdo que, na hora da verdade, os comunistas fugissem a uma história que foi marcada pela fiabilidade e consequência nos seus atos.

Fonte: Expresso | Que o PCP não contrarie a sua história

Metemos o presidente numa loja de porcelanas

Artigo de opinião de Azeredo Lopes no JN

O presidente falou e cumpriu o seu desígnio habitual: quando fala claro, semeia a confusão. Quando é ambíguo, também semeia a confusão.

Recorreu a uma formulação estrambólica para se desobrigar (mas não em substância) de ouvir quem quer que fosse, à exceção do líder do PSD – a quem, aliás, causou grave prejuízo político. E desenhou uma linha vermelha, melhor, um rastilho de pólvora, em que excluiu o Bloco e a CDU de qualquer conversa.

Tivesse seguido com sujeição veneranda o ditame de Belém, António Costa ficava sozinho. Passos Coelho só podia falar com ele. E Costa não podia falar com mais ninguém, a não ser para certificar com lacre o desenlace feliz de um novo Governo. Mas Costa, pelos vistos, não aprecia os casamentos preparados.

Artigo na integra aqui: Metemos o presidente numa loja de porcelanas – JN