Salários no topo cada vez mais desiguais

O mercado de trabalho mudou muito desde que Portugal aderiu à CEE. Primeiro Dia do Trabalhador foi comemorado há 42 anos

Nas últimas três décadas, as mulheres reforçaram a presença no mercado do trabalho e são hoje metade (49%) dos portugueses empregados. Esta evolução para a igualdade na “ocupação” dos empregos disponíveis não teve paralelo nas remunerações. Quando aceitam trabalhos pouco qualificados, eles e elas ganham praticamente o mesmo, mas nos cargos de topo ou altamente qualificados o caso muda de figura. Pior, em 30 anos, a disparidade aumentou, e muito.

Foquemo-nos em 1986. Por essa altura, praticantes e aprendizes (categoria a que pertencem os trabalhadores em lugares menos qualificados e de menor responsabilidade) ganhavam cerca de 2% menos do que colegas homens. Hoje, a diferença é de 5%. Mas quando se olha para o que sucedeu nos cargos de topo, os dados reunidos pela Pordata mostram que a diferença de remunerações entre uns e outras nos quadros superiores aumentou de 26% para 36% e nas profissões que exigem pessoas altamente qualificadas as mulheres ganham agora, em média, menos 19% do que os homens, contra uma diferença de 2% em 1986. “São diferenças assinaláveis e que nos devem fazer refletir”, diz Maria João Valente Rosa, diretora da Pordata, da Fundação Manuel dos Santos, que apresenta hoje um estudo sobre a população empregada em Portugal. E no período em análise assistiu-se ao reforço da qualificação das mulheres.

Diferenças salariais à parte, Portugal tem mais 260 mil pessoas empregadas do que quando aderiu à CEE, para um total de 4548 mil trabalhadores. Que retrato se poderia tirar daqui se a população a trabalhar fosse reduzida a cem pessoas? Os resultados revelam que neste tempo se reforçou o número de trabalhadores por conta de outrem (com patrão) e de funcionários públicos: seriam 11 em 1986, mas hoje são 15 naquela centena. O aumento do trabalho dependente foi acompanhado de mais precarização nos vínculos laborais e de horários reduzidos (a tempo parcial). No caso dos part times, diz Maria João Valente Rosa, houve uma duplicação (de 5% para 13%), sendo o crescimento entre os homens o mais expressivo, apesar dos nossos 13% estarem abaixo da média de 20% da UE. Outro sinal dos tempos e da evolução demográfica está na participação dos mais jovens (15 aos 24 anos) no mercado de trabalho. Há 30 anos, 19 daqueles cem trabalhadores estariam nessa faixa etária, hoje são cinco. Tendência justificada pelo envelhecimento da população, taxa de desemprego e adiamento da entrada na vida ativa, com o prolongamento de estudos – o que mostra a aposta na qualificação.

Esta aposta é o caminho certo, mas a responsável da Pordata não tem dúvidas de que tem de ser reforçada e que Portugal tem ainda um longo caminho a percorrer. Os números ajudam a compreender: Portugal é o 6.º país da UE onde as pessoas trabalham mais horas (apenas na Grécia, Polónia, Malta, Letónia e Croácia a carga horária é mais musculada). Mas quando se olha para a tabela da produtividade, cai para a 20.º. Porque a quantidade não é sinónimo de qualidade, mas reflexo das baixas qualificações. Basta ver que 47% dos trabalhadores por conta de outrem têm apenas o 9.º ano (na UE são 17%) e que 58% dos empregadores não foram além desse nível de escolaridade.

Lucilia Tiago no DN

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